A IMPORTÂNCIA DO FAZER, CRIAR E BRINCAR

1  – INTRODUÇÃO

                                                                      

Sabemos que a educação infantil é muito lúdica e muito dinâmica, por isso trabalhar com crianças menores é sempre um desafio. A arte tem sido uma parte importante nos programas da chamada primeira infância. O pedagogo alemão Friedrich Fröebel, considerado o “pai” do jardim de infância, foi o primeiro educador a enfatizar a importância do brinquedo e da atividade lúdica. Ele também disseminou o conceito de que as crianças deveriam criar as próprias expressões artísticas e apreciar a arte criada por outros.

Pensando nas crianças que recebemos em nossas salas de aula e no período histórico que estamos vivendo, não podemos deixar de pensar que quando trabalhada e estimulada desde a mais tenra idade, as crianças são capazes de na vida adulta tornar-se portadoras dos verdadeiros valores essenciais à vida. Assim, a arte tem a graça de possibilitar o desenvolvimento de atitudes como o senso crítico, a sensibilidade e a criatividade; além, é claro, de proporcionar à criança uma leitura do mundo e de si própria.

Nos dias atuais estamos lidando com crianças de uma nova geração, a geração Alpha, que nasceu em um contexto global no qual as novas tecnologias estão bem mais desenvolvidas do que há dez anos. O uso dessas ferramentas tecnológicas, hoje, é diferente, os desafios ambientais são mais preocupantes e a quantidade de informações com as quais lidamos no dia a dia nunca foi tão grande. Diante de mais esse desafio, a busca e estudo por técnicas e atividades interessantes e lúdicas não pode deixar de ser preocupação no preparo das aulas, e atividades de arte devem ter um papel fundamental para resgatar nossos alunos da tecnologia que os “prende”, para que vivenciem atividades prazerosas com movimentos de corpo e mente, que os levem a fazer conexões e se desenvolvam nesse aspecto tão rico da educação.

Nós, educadores, temos sempre que utilizar os recursos disponíveis – e imaginar outros – para que a arte na escola não fique reduzida às atividades de coordenação motora, decorativa e/ou um mero passatempo.

 

 

 

2 – DESENVOLVIMENTO

 

A importância, bem como, a relevância da arte na infância encontra-se presente desde as propostas para as primeiras instituições de educação infantil, elaboradas por seus precursores. Froebel (1782-1852), influenciado por um ideal político de liberdade, criou um jardim de infância, em 1837, considerado, por ele, como um espaço onde as crianças e os adolescentes estariam livres para aprender sobre si e sobre o mundo. Em seu método pedagógico, utilizou-se da música para educar as sensações e as emoções; enfatizava a participação em atividades de livre expressão através da música, dos gestos e montagens com papéis e argila. Para Froebel, tais atividades possibilitavam que a criança expressasse seu mundo interno, como forma de conseguir ver-se e, assim, modificar-se, através da auto-observação (OLIVEIRA, 2007).

A arte é a área do conhecimento que abrange o desenvolvimento e a prática da linguagem visual, por isso é tão importante. É durante esta disciplina que a criança terá o contato com esta linguagem, gradativamente, de acordo com a sua idade. Além de oferecer oportunidade de auto-expressão, as artes visuais são consideradas um importante meio para o desenvolvimento social, pois é através das aulas de artes que ocorrem importantes possibilidades de interações sociais e trocas de experiências, também pode-se notar um desenvolvimento físico, em que se manifesta a capacidade de coordenação visual e motora da criança, na maneira que controla seu corpo, orienta seu traço e dá expressão a suas aptidões, além é claro do desenvolvimento intelectual, que pode ser demonstrado de acordo com o conhecimento que está à disposição da criança quando desenha e é apreciado na compreensão gradativa que a criança tem de si próprio e do seu meio, também not-se o desenvolvimento emocional, que neste caso está diretamente relacionado à intensidade que a criança tem com sua obra, que pode variar entre baixo nível de envolvimento e alto nível de envolvimento quando está empenhada em retratar algo realmente importante pra ela. (LOWENFELD, 1977).

No processo de construção de conhecimento, já sabemos que o indivíduo é sujeito ativo e só vai aprender significativamente se houver uma interação com o objeto. Com base na teoria piagetiana, o indivíduo é sujeito do processo de construção do seu conhecimento e esse processo só é possível mediante a sua ação. Por isso é importante ressaltar que um trabalho artístico sempre carrega a marca do seu criador, ou seja, traz embutida, em si, a ação do sujeito que a criou, que é fruto de sua interação com o meio e com o próprio objeto criado e pensando nesse processo, o indivíduo é capaz de construir o entendimento de novos conceitos referentes a materiais e a técnicas utilizadas, o que se dá nas artes plásticas, na dança, no teatro, na música, e na produção de poesias. As Artes constituem atividades pelas quais o indivíduo é despertado para a criatividade, a qual se acentua com a prática.

O ato criativo é um processo que sempre traz algo da pessoa que o executa, tornando o autor da obra um ser único, capaz de mostrar ao mundo um pouco de si, o que será uma atividade muito rica e chamativa para essa nova geração que estamos recebendo hoje em dia. Uma pintura, por exemplo, por mais que uma pessoa tente fazê-la igual a uma outra, nunca o será e sempre apresentará algo diferente. Como processo de criação do novo, a arte favorece a superação, do que é igual e da reprodução, favorecendo o desenvolvimento de uma aprendizagem mais significativa e criativa.

Desde a primeira infância a criança utiliza o desenho para a representação da realidade, suas vivencias, desejos e necessidades. ‘Desenhar, pintar ou construir constitui um processo complexo em que a criança reúne diversos elementos de sua experiência, para formar um novo e significativo todo´. (LOWENFELD, 1977, p. 13) Este processo de criação em que a criança faz a seleção, interpretação e reformulação dos elementos é de extrema importância, pois ela direciona para o trabalho artístico parte de si própria.

Partindo desta análise, pode-se afirmar que além do aprendizado adquirido nas interações familiares as crianças também recebem informações no ambiente escolar, já que é neste ambiente que a criança ficará boa parte de seu tempo e é este ambiente que deverá proporcionar experiências significativas para o seu desenvolvimento. Como nesta fase as crianças precisam ser incentivadas a vivências lúdicas, significativas, que explorem a criação, a emoção e a sensibilidade, é no ensino da arte que ela terá o contato com estes elementos fundamentais para a construção humana.

A educação exerce um papel primordial no desenvolvimento da personalidade dos indivíduos. Por essa afirmação, é fácil perceber que o futuro de um aluno que é instigado, que desenvolve a criatividade e o pensamento crítico, fazendo conexões com a atualidade e ligando recursos tecnológicos a técnicas de arte, tem perspectivas melhores de inserção na sociedade, pela possibilidade de conscientizar-se do seu lugar de cidadão.  Os alunos que estamos recebendo em nossas salas de aulas são crianças da geração Alpha (Alpha é um termo usado pelo australiano Mark McCrindle, para designar a nova geração de crianças nascidas a partir de 2010. Esta geração, de acordo com o sociólogo, é determinada por pessoas muito mais independentes e com um potencial muito maior de resolver problemas do que seus pais e avós) e são muito curiosas, espertas e ligadas em tudo à sua volta e que terão, provavelmente, o maior nível educacional de todas as gerações; começarão a estudar mais cedo; serão as primeiras a experimentar um novo sistema escolar, mais personalizado, com foco na autonomia do aluno e no aprendizado, baseado em projetos para aprender por meio de situações do cotidiano; e vão deter o maior conhecimento tecnológico da história.

Os desafios para os pais e escolas ao lidar com as crianças dessa geração, portanto, estão mudando. De um lado, os pais estão sobrecarregados em razão de um contexto de vida muito corrido e com pouco espaço para reflexão, principalmente nas grandes cidades. As escolas estão sem saber como engajar as novas gerações, porque os alunos não se interessam mais pela forma de ensinar que ainda predomina. Com tudo isso, surge um novo papel para o professor: o de mentor e orientador dos alunos. A função principal não é mais de transmitir informação, porque as novas tecnologias podem fazer isso de forma eficiente também. O professor, agora, será cada vez mais importante como referência de inspiração e de valores, que deverá oferecer atividades que façam com que os alunos possam, a todo momento, estimular as duas áreas do cérebro, guiando o aluno
em seu aprendizado e ajudando-o a conhecer os seus talentos, limitações e aspirações.

Para tanto, é necessário que o professor busque conhecer obras de arte, a vida dos artistas, o contexto em que essas obras foram criadas, suas características mais marcantes, assim como, é preciso conhecer as diversas técnicas utilizadas em pintura, desenho, escultura e, da mesma forma, na música, na dança e no teatro. Envolver a arte no processo educacional de crianças para buscar uma educação significativa para elas, não se limita apenas em incluí-la em um currículo. Para Iavelberg (2003), a arte não pode ser encarada como mágica. Portanto, para provocar um desenvolvimento educacional mais rico e significativo entre as crianças, é necessário que se reconheça a importância do envolvimento do educador e da instituição escolar.

Os PCNs – Arte (1997) propõem, como elementos de trabalho, a música, a dança, as artes visuais e o teatro, considerando-os como objetos de conhecimento e de manifestações culturais. Sugerem também que a dança pode ser vivenciada de forma coletiva e individual, sendo os dois modos importantes para o desenvolvimento social e da autonomia. O trabalho com as artes visuais deve propiciar uma apreciação significativa, ou seja, o desenvolvimento da percepção, a decodificação das mensagens e reconhecimento da importância da arte para a sociedade e para a história da humanidade. Na música, deve-se desenvolver a apreciação, o canto, a composição e o manuseio de instrumentos musicais. Para o teatro, é preciso que se considere o nível de desenvolvimento da criança, iniciandose com trabalhos que valorizem a espontaneidade, evoluam até o cumprimento de regras e que partam do individual para o trabalho coletivo, considerando-se este, um processo gradativo.

Piaget mencionou que “cabe ao professor acreditar na potencialidade de seus alunos, e organizar experiências que lhes possibilitem interagir com os saberes formalizados”. Desta forma, pais e professores deixam de ser educadores e passam a ser mentores, com foco maior na orientação de uma geração que possui acesso as informações na palma da mão. Neste contexto devemos estimular essa geração alpha, Aceitando que as mudanças vieram para ficar e que serão positivas, Deixndo-a experimentar e viver as inovações sem definições pré-estabelecidas, ensinar a questionar e a não aceitar tudo pronto e definido é tão importante quanto estar a par de tudo o que a tecnologia tem a oferecer e ajudar nossos alunos a valorizar a diferença.

Para orientar o modo como as aulas de artes podem ser aplicadas na Educação Infantil no período entre 4 e 6 anos, os Referenciais Curriculares para a Educação Infantil apresentam uma metodologia que aponta o ensino da arte como uma linguagem que tem estrutura e características próprias, cuja aprendizagem se dá por meio de articulações dos seguintes aspectos:

  • Fazer artístico – centrado na exploração, expressão e comunicação de produção de trabalhos de arte por meio de práticas artísticas, propiciando o desenvolvimento de um percurso de criação pessoal.
  • Apreciação – percepção do sentido que o objeto propõe, articulando-o tanto aos elementos da linguagem visual quanto aos materiais e suportes utilizados, visando desenvolver, por meio da observação, a capacidade de construção de sentido, reconhecimento, análise e identificação de obras de arte e de seus produtores;
  • Reflexão – considerado tanto no fazer artístico como na apreciação, é um pensar sobre todos os conteúdos do objeto artístico que se manifesta em sala, compartilhando perguntas e afirmações que a criança realiza instigada pelo professor e no contato com suas próprias produções e as dos artistas. (BRASIL, 1998, p.89)

 

O educador tem que ter iniciativa de promover atividades instigantes, ser voraz ao pesquisar coisas novas, ter o desejo de ensinar e fazer do ensinar um momento mágico. Mas sabe-se que para o ensino em artes ser de fato satisfatório depende de muitas variantes que vão desde a formação dos professores, da metodologia por eles utilizada, do currículo e da instituição.

A consideração de que a arte e seus elementos estão presentes em nosso dia a dia; não deve ser vista só como um meio de oportunizar prazer às crianças, para trabalhar a coordenação motora ou para enfeitar as salas de aulas, mas ao contrário, deve-se trabalhar a arte como contribuição para a construção do conhecimento sensível da criança, já que contribui também, para a educação do olhar desta, e ajuda a ampliar suas leituras de mundo, que está muito ligada as tecnologias e a rapidez de respostas e informações.

Segundo Cunha (1999, p.10), “para que as crianças tenham possibilidades de desenvolverem-se na área expressiva, é imprescindível que o adulto rompa com seus próprios estereótipos (…)”, assim, o professor tem que estar sempre presente e fazer parte do processo de descoberta da criança, desprezando os estereótipos e abrindo a mente para novas idéias e novos materiais, não só entendendo, mas vivenciando as linguagens da arte com a criança, assim conseguirá acompanhar essa geração alpha, que chegou cheia de novidades tecnológicas.

 

 

 

3  – CONCLUSÃO

Portanto, as crianças pequenas precisam mais do que nunca de adultos com capacidade de se interessar por elas e de refletir sobre o que elas necessitam, com ética para ensinar valores importantes e, acima de tudo, capazes de amar e dar carinho em um mundo nunca antes tão complexo.

Para conseguir que uma sociedade valorize as produções artísticas em geral será necessário termos um novo olhar para com a educação infantil. Aprender apreciar e valorizar as produções desta fase, pois uma sociedade só aprende a valorizar sua cultura se for vivenciada desde criança. O papel do educador deve ser a de fazer esta mediação, para que as motive e incentive superando assim todos os obstáculos par que se sintam autoras da sua arte com autonomia e espontaneidade. Ser criança é conquistar seu espaço de forma única, sendo assim o professor deve entender um pouco desse universo infantil. O aprendizado do ser humano se dá de várias maneiras e está em constante busca de novos conhecimentos renovando- se a cada dia.

É claro que determinar o passo entre uma geração e outra é muito relativo. Nós somos seres em constante desenvolvimento e evoluímos de acordo com nossas necessidades. É um equívoco engessar gerações por serem de épocas diferentes. Devemos traçar caminhos de acordo com as características mais marcantes de cada fase e trocar aprendizados entre uma geração e outra.

Assim, é possível afirmar que, como as outras disciplinas, a arte deve ter o mesmo valor e precisamos fazer com que haja uma mudança com relação a isso, que os professores também tenham o desejo de ver algo novo acontecer e que as escolas criem oportunidades para que o ensino seja possível. Esperamos que muitas pessoas ainda tenham o desejo de pesquisar sobre esse assunto, para que possamos atuar melhor na sociedade colaborando com a formação integral do cidadão.

 

REFERÊNCIAS

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF. V. 3, 1998.

 

BRASIL. MEC. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros curriculares nacionais (1ª a 4ª Séries): Arte. Brasília: MEC/SEF, 1997.

 

IAVELBERG, Rosa. Para gostar de aprender arte: sala de aula e formação de professores. Porto Alegre: Artmed, 2003.

 

LOWENFELD, Viktor; MAILLET, Miguel (Trad.). A criança e sua arte: um guia para os pais. 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

 

LOWENFELD, Viktor; BRITTAIN, W. Lambert. Desenvolvimento da capacidade criadora. São Paulo: Mestre Jou, 1970

 

OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação Infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2007.

PIAGET, Jean. Psicologia e Pedagogia. Tradução: Dirceu Accioly Lindoso e Rosa Maria Ribeiro da Silva. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1980.

Flávia

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