A Hiperatividade

A hiperatividade na criança é um tema que aflige muitos pais e desafia profissionais que trabalham com a infância. Este artigo tem como objetivo geral ampliar o conhecimento acerca da hiperatividade. Foi desenvolvido através de uma revisão bibliográfica sistematizada, tomando como base literatura pertinente disponível em bibliotecas de instituições superiores de ensino, em livros e artigos de revistas e de trabalhos disponíveis em internet. Renomados autores foram consultados como: PATTO (1991), JODELET (1995) LEFEVRE (1998), entre outros. Faz-se preciso reflexões sobre a temática, onde na prática do cotidiano, a partir desse trabalho, possa abrir um leque de informações para que professores, gestores, pais, profissionais de saúde, possam através de um “respaldo correcional”, buscar saídas reparadoras para que ninguém mais sofra sozinho com este problema, mas que haja uma consciência crítica a uma nova postura.

Palavras-chave: Hiperatividade; A criança hiperativa; o fracasso escolar.

Introdução

Este artigo visa ampliar o conhecimento acerca da hiperatividade como um reforço significativo no sentido de amenizar esse drama na família, escola e na sociedade em geral.

A hiperatividade é um tema bastante discutido, em virtude de acarretar sérios problemas de interação social e aprendizagem. É considerado atualmente o distúrbio de comportamento diagnosticado mais frequentemente pela escola e pelos especialistas educacionais.

Ela é associada ao fracasso escolar, porque as crianças que sofrem desse problema demonstram várias dificuldades de aprendizagem relacionadas às áreas de atenção e concentração, mostrando-se dispersas durante as atividades e execução das tarefas escolares, dificultando a apreensão dos conteúdos pedagógicos.

Patto (1991) estudando o fracasso das crianças da escola pública elementar é administrado por um discurso científico que escutado em sua competência, naturaliza esse fracasso aos olhos de todos os envolvidos no processo.

A escola aceita sem grandes dificuldades os alunos lentos, os preguiçosos, os sonhadores, contanto que permaneçam quietos e não atrapalhem o andamento da sala de aula. Porém, uma criança, mesmo sendo inteligente e esforçada, é muito mal tolerada, quando não consegue parar no lugar, levantando-se e passeando pela sala de aula, entrando e saindo sem parar, distraindo os colegas, perturbando a disciplina da turma e impacientando o professor.

Percebe-se atualmente, maior preocupação e interesse com problemas das crianças que demonstram dificuldades em seu desenvolvimento pelo volume de pesquisas, trabalhos e livros publicados nos últimos anos. A hiperatividade destaca-se como um dos mais discutidos, provavelmente por se tratar de um tema bastante controvertido.

O referencial teórico das representações sociais, por ser uma forma de conhecimento natural, um saber ingênuo, uma forma de saber distante do saber cientifico, segundo Jodelet (1995), poderá esclarecer como são elaboradas as representações dos conceitos “hiperatividade” e “criança hiperativa”, baseadas no senso comum, nas conversas entre os indivíduos em sua vida cotidiana ancoradas nas crenças, valores e ideias que vão formando nas interações sociais.

O que é uma criança hiperativa?

O Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) é responsável pela enorme frustação que pais e filhos que sofrem desse distúrbio experimentam a cada dia. Crianças, adolescentes e adultos hoje diagnosticados com TDAH são frequentemente rotulados de “problemáticos”, “desmotivados”, “avoados”, “malcriados”, “indisciplinados”, “irresponsável” ou até mesmo “poucos inteligentes”. A maioria daquilo que lemos ou ouvimos sobre o assunto tem uma conotação negativa. A razão disso é o fato deste transtorno continuar sendo pouco conhecido, apesar dos estudos a respeito terem se intensificado nas últimas décadas e a prática ter mostrado que um índice significativo de crianças em idade escolar estarem inclusas nesse diagnóstico (LEFEVRE, 1998).

Hoje, sabemos que o TDAH é um distúrbio neurológico sério, mas tratável, embora de difícil diagnóstico e acompanhamento, devido à necessidade de um trabalho multidisciplinar contínuo. “ É possível afirmar que as pessoas portadoras de TDAH, apesar das dificuldades decorrentes da condição, podem prender a tirar o melhor partido das suas características e a realizar todo o seu potencial. O TDAH, apesar das dificuldades decorrentes da condição, pode aprender a tirar o melhor partido das suas características e a realizar todo o seu potencial. O TDAH pode ser considerado um dom, um sentido extra que seus portadores têm para as coisas uma maneira que se tem de chegar ao amago das situações, enquanto os outros só chegam lá de maneira racional e metódica” (LEFEVRE, 1998).

Os bebês com TDAH choram muito, são irritadiços e assustados, deixando os pais sem saber como estabelecer uma relação de afeto com essa criança. Em relação a isso Cruischank (1995), esclarece:

Quando o recém-nascido é levado à mãe, em vez de mamar normalmente, apesar de fome, recusa o seio porque não pode sugá-lo, a criança fica frustrada e a mãe também. A mãe tenta força-lo, mas ela repele o seio e finalmente cai sonolenta. Exausta pelo esforço físico desprendido. A mãe fica tensa porque não consegue satisfazê-lo e porque não encontra alívio para si mesma.

Depreende-se daí que o papel da mãe é de fundamental importância. A criança ainda no seio suga o alimento que lhe nutre e dá sustentação a vida. É imprescindível que a mãe disponha de tempo para amamentar de forma saudável.

Á Kaplan & Sadock (1984) consideram:

Um recém-nascido por uma perturbação por déficit de atenção pode ser injustificadamente sensível aos estímulos e pode responder de forma não diferenciada. Maciça e adversa. É comum que a criança seja muito atia no berço, desenvolva-se rápido, durma pouco e chore muito, mesmo quando já se passaram os três meses de cólicas. Rapidamente aprende a descer do berço e logo é capaz de movimentar-se pela casa, mexendo, derrubando ou quebrando tudo.

Para a maioria dos professores, a falta de atenção, o excesso de agitação, a dificuldade para seguir instruções, controlar as emoções e as atitudes impulsivas dos alunos representa um caos no contexto escolar e tormento ao lidar com a situação. É comum no ambiente escolar encontrarmos graus variados de atenção, agitação e impulsividade, no entanto, há alunos que são incapazes de controlar esses comportamentos em decorrência de um transtorno neurobiológico de caráter hereditário conhecido como Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

É importante ressaltar que apesar da hiperatividade ser um tema estado à muito tempo, ainda é de pouco conhecimento da sociedade em geral. Já em 1897, Bourneville (apud Duché, 1996) fez as primeiras descrições da instabilidade psicomotora como é chamada pelos estudiosos franceses, considerando o comportamento hiperativo como um sintoma, principalmente em certos casos de atraso mental.

Diante do exposto, apesar desse distúrbio ser conhecido desde o final do último século, ainda não se conhecem as causas concretas que o ocasionam. Por tanto, de acordo com a literatura especializada, para ser considerada hiperativa, uma criança deve manifestar um certo número de comportamento tais como:

  • Agitação constante;
  • Impossibilidade de permanecer sentada;
  • Distração sem motivo aparente;
  • Dificuldade para aguardar a sua vez;
  • Respostas impensadas e impulsivas;
  • Dificuldades de brincar tranquilamente;
  • Fala contínua e excessiva;
  • Interrupções frequente dos outros sem escutar;
  • Desorganização generalizada;
  • Exposição a muitos riscos.

Contudo, não se poderá jamais rotular uma criança de hiperativa, sem que sejam esgotadas todas as possibilidades de investigação causais, através de sua história de vida, relações familiares, situações educativas, características de personalidade, de seu ambiente econômico e cultural. As tentativas de intervenções junto à criança, à família e a escola poderão se dar num contínuo de aproximações variáveis ao que já se tem de conclusivo acerca do problema.

Sobre inclusão da criança hiperativa, que desde bebê demostra estar sempre em alerta, chora muito, é difícil e estar sempre irritada, aos dois anos tem sua capacidade de parar, escutar ou atender, não obedece aos pais, arrisca-se subindo em muros e metendo-se geralmente em situações perigosas, sobre isso Dominguez ressalta que:

Na Educação Infantil (modalidade de ensino escolar), essas características permaneçam, mas se acrescentam problemas de atenção e concentração e os problemas sociais vão se agravando, pois agora, já convive com outras pessoas fora de seu círculo familiar. O curto período de atenção, baixa participação em jogos e brincadeiras na sala de aula ( DOMINGUEZ, 1986, p. 61).

Essas crianças passam a serem percebidas como importunas, dominadoras e inconsequentes. O comportamento torna-se motivo de exigências e descriminações, tornando necessário a educação especial para a inclusão escolar dessas crianças, começando na educação infantil. Para isso, precisa a distinção entre criança hiperativa e criança apenas com distúrbio de atenção mais leve daquelas que só buscam, apenas, chamar atenção. Aos educadores, requer paciência, conhecimento e disponibilidade, pois eles exigem tratamento diferente, mais atenção e uma rotina especial estimulante. Em uma entrevista à Revista Nova Escola, Gentile (2000, p. 30) diz que para fazer tal distinção existem “três fatores principais: a contínua agitação motora, a impulsividade e a imensa dificuldade de se concentrar”.

Segundo o psiquiatra Ênio Roberto de Andrade, a hiperatividade fica evidente no período escolar, quando é preciso aumentar o nível de concentração para aprender. O diagnóstico clinico, no entanto, deve ser feito com base no histórico da criança. Por isso a importância de um educador atencioso e conhecedor de tal distúrbio.

Andrade acrescenta:

Geralmente os hiperativos se mexem muito durante o sono quando bebês. São mais estabanados assim que começam a andar. Ás vezes, apresentam retardo na fala, trocando as letras por um período mais prolongado que o normal. Em casa esses sintomas nem sempre são suficientes para definir o quadro. Na escola, porém, eles são determinantes (ANDRADE, 2000, p. 31).

Para Weiss e Cruz, (2007) tratando-se do ambiente educacional, é um desafio para os educadores, tanto distinguir os tipos de transtornos como por exemplo TDAH, como também a dificuldade em trabalhar com alunos que apresentam algum tipo de distúrbio, destaca ainda a dificuldade, também devido à grande demanda de alunos diante da dinâmica do dia-a-dia. As autoras destacam ainda o professor como um dos protagonistas no processo de inclusão escolar, ressaltando a importância de ser dinâmico, articulador de ideias e projetos que proporcionam um ambiente escolar inclusivo. Concordando assim que a escola tem a responsabilidade de incluir alunos com uma educação especial inclusiva, já que é na escola onde crianças com TDAH demostraram seus reais comportamentos e darão respostas em seu desenvolvimento, social e cognitivo.

Reconhecer a hiperatividade, a desatenção e a impulsividade como sintomas de um transtorno, não deixa de ser complexo, pois a realidade nos mostra o quanto a escola está despreparada para atender a diversidade. Há alunos que manifestam alterações no comportamento provenientes não de uma patologia, mas sim, de uma práxis social e pedagógica que reforça ou desencadeia esses comportamentos. Diante disso, cabe ao professor investigar em que situações do ambiente escolar o excesso de agitação, impulsividade e dificuldade em fixar a atenção tornam-se mais evidentes.

Conclusão

Diante do exposto, conclui-se que a hiperatividade é um transtorno de difícil diagnóstico que pode levar a muitas interpretações errôneas, que acabam por dificultarem o acompanhamento das crianças por ele afetadas. É um distúrbio conhecido desde o final do último século, porém até os dias atuais suas causam são pouco conhecidas. A análise criteriosa de comportamentos já definidos na literatura especializada ajuda a identificar e diferenciar uma criança hiperativa, sendo dispersa com dificuldade de atenção, concentração e aprendizagem.

Com isso, diante do que foi visto, comprova-se que, em geral, a escola é quem primeiro identifica o comportamento da criança dentro do ambiente de aprendizagem, visto que o mesmo é mais cobrado em atividades que requer atenção, compreensão e concentração. Por isso a importância da educação especial no ambiente escolar para que possa disponibilizar uma educação inclusiva, proporcionando ao aluno que sofre de algum transtorno, no caso, Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), uma educação especial inclusiva com qualidade.

É preciso que o professor obtenha conhecimentos básicos através dos profissionais de saúde mental acerca do TDAH para que possa desenvolver as competências que lhe cabem, enquanto professor, e também em casos específicos, observar comportamentos destoantes, não com um olhar patologizante, mas reflexivo e crítico, levando em consideração o contexto socioeducacional em que o aluno está inserido e revendo também, a práxis pedagógica adotada pela escola. Somente tendo uma postura crítica e investigativa é que o professor poderá contribuir com observações e registros sobre o comportamento manifestado pelo aluno no contexto escolar. Embora haja inúmeros estudos científicos sobre o TDAH, ainda não são conclusivas as investigações sobre a etiologia do transtorno. Apesar de as evidências de alterações genéticas neuroanatômicas e neurofuncionais estarem presentes nas pessoas que apresentam esse transtorno, não podemos ignorar que a educação tem muito a contribuir no diagnóstico clínico multidisciplinar do TDAH. É imprescindível, portanto, que o professor tenha conhecimento acerca do transtorno e dos aspectos psicológicos, sociais e educacionais que envolvem a presença de comportamentos inadequados em ambiente escolar. Somente quando o professor estiver imbuído de informação científica, antenado aos comportamentos que se assemelham ao TDAH e com um olhar crítico sobre a realidade educacional poderá fazer as seguintes indagações: até que ponto os sintomas ocorrem em decorrência de um mau funcionamento neurobiológico, isto é, de uma anormalidade do desenvolvimento do cérebro proveniente de fatores hereditários? Ou será que eles surgem por conta de um jeito de ser particular do sujeito que não se satisfaz com a motivação e estimulação oferecida pelo ambiente escolar? Ou quem sabe, estará o comportamento inadequado do aluno representando como resposta a modalidade de uma práxis pedagógica incompatível com a necessidade e expectativas deste aluno? Não é nada fácil responder a questões tão complexas como essas, pois não podemos ignorar que encontraremos no ambiente escolar casos específicos que exigem também tratamento específico, no entanto, até mesmo nesses casos especiais, não podemos desconsiderar a influência do ambiente no comportamento do aluno. Estudos abordam que o ambiente não é o causador do transtorno, mas poderá agravar os sintomas dos comportamentos hiperativos, impulsivos e desatento.

 Assim sendo, dizer que o ambiente agrava esses sintomas é bastante distinto de dizer que provoca. Falar da necessidade do professor conhecer o TDAH exigirá desse profissional bastante estudo e reflexões sobre o processo ensino e aprendizagem. Conhecer e distinguir o TDAH da indisciplina escolar é imprescindível para que rótulos e estigmas não surjam no ambiente escolar e o professor não adote intervenções 247 indevidas, sem que antes analise o contexto em que o aluno está inserido e faça um levantamento de hipóteses que possam estar desencadeando o comportamento inadequado do aluno. Tanto os rótulos, como as intervenções inapropriadas, além de serem reforçadores potenciais dos sintomas do TDAH, comprometem a interação social e contribuem com a baixa autoestima do aluno

Referências

CRUISCHANK, William M. El Niño com Dãno cerebral em 1a Escuela em el Hogar Yen la comunidade. México; Editorial Trilhas, 1975.

DOMINGUEZ, Wanderley M. A criança Hiperativa e a aprendizagem. Boletim da associação Brasileira de Pscicopedagogia. Ano 8, jul/1989, n° 17.

DUCHÉ, Jacques. L: Enfant Hyyperactif. Paris. Ellipses, Editon Marketing, 1996.

GENTILE, Paola. Indisciplinado ou hiperativo. In Revista Nova Escola, ano XV, n° 132, maio/2000.

JODELET, Denise (org). Les representations sociales. Paris, PUF, 1995.

KAPLAN & SADOCK, Compêndio de psiquiatria Dinâmica. 3 ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984. Tradução: Namur R. I. da costa.

LEFEVRE, A. B. Disfunção cerebral mínima. IN Marcondes, coord. Pediatria Básica. 6a edição. São Paulo, Sarvier, 1998. P. 796-807.

PATTO, Maria Helena. A produção do fracasso escolar. São Paulo, T.A. Queiroz Editora Ltda, 1991.

TAMIRES SANTIAGO DOS SANTOS FERNANDES

IGUATU - CE

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