A Infância e o Brincar

O desenvolvimento infantil envolve muitos termos relevantes, e o resgate do brincar é um deles, pois a brincadeira enquanto proposta pedagógica atua como forma de estimulação no desenvolvimento integral da criança, atingindo de forma positiva no desenvolvimento da capacidade cognitiva, física, emocional e social do ser humano.

 A valorização do aprendizado através das brincadeiras e jogos tem sido reforçada entre educadores e especialistas da área, assim valorizando cada vez mais estas práticas pedagógicas educacionais, não deixando esquecer que não existe infância sem o brincar.

 A importância do lúdico

O lúdico é essencial para o aprendizado. Pra Piaget(1978, 207) a criança aprende brincando,”(…) o jogo constitui o pólo extremo da assimilação do real ao eu.

 Neste texto tenho como objetivo colaborar com propostas educacionais reforçando a importância do lúdico na educação infantil, partindo de que o desenvolvimento da criança passa pelo brincar, sendo no lúdico que ela mostra seus conhecimentos e amplia suas concepções de convivência e de aptidões, é na repetição de atitudes do cotidiano  através de brincadeiras, imitações e jogos,que ela compartilha seu modo de ver o mundo que a cerca e também abre espaço para novas aquisições de conhecimentos.  

 Segundo Piaget (1967, p.25) “o jogo não pode ser visto apenas como divertimento ou brincadeira para desgastar energia, pois ele favorece o desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo e moral”. Piaget defende o lúdico no processo de desenvolvimento intelectual e infantil contribuindo muito para o processo pedagógico.

 Uma infância sem a magia das brincadeiras, da imaginação, do desafio não se constitui infância propriamente dita, é visível que uma criança que não brinca sofre de conflitos e emocionais e perda de referências.

 A brincadeira, os contos, os jogos e os brinquedos sempre fizeram parte da infância onde se dizia pelos pais ou pessoas de idade que isso era coisa de criança, mas o objetivo era visto apenas por distração.

 Hoje em dia estas práticas já fazem parte de outros contextos sendo inserida nas escolas e instituições de educação infantil, onde são vistas como instrumentos fundamentais para o desenvolvimento do ser humano, e numa breve observação não é mais vista como “coisa de criança”, e sim valorizada em todas as etapas da vida, estimulando pais e cuidadores a participar das brincadeiras das crianças como forma de estímulos e integração com o seu mundo, onde também favorece o relaxamento e vínculo com os filhos, esta prática também é vista positivamente em benefício á idosos em vários tipos de tratamentos mentais e físicos.

O resgate do brincar

O lúdico em tempos modernos perdeu a sua essência e podemos dizer que nossas crianças já não sabem mais brincar.

 A modernidade e a era dos brinquedos tecnológicos, estão colaborando com a perda da infância e que a fantasia do brincar vem se modificando ao longo do tempo, pois os sofisticados equipamentos de diversão tecnológica afastam as crianças das atividades lúdicas,físicas e principalmente criativas ao ar livre, confinando-as em recintos fechados, por vezes, até acompanhadas, mas sem um contato interativo com o outro, o que é muito importante para seu desenvolvimento social. Nesta era em que um ou dois clicks, resolvem tudo, perdemos a noção de brincar, de construir, de inventar brincadeiras, criar oportunidades de aprendizado, pois, criança aprende brincando. Em grande maioria as crianças perderam o interesse nas brincadeiras e também nos brinquedos comuns e em atividades físicas, pois, seus brinquedos não exigem mais que inventem o brincar, os brinquedos modernos brincam por elas, falam por elas, cantam, andam, e muito mais atributos que a era tecnológica oferece. A criança não vive a diversão ela assiste.

 Diante da constatação de que não sabem brincar e que a infância está se perdendo, é preciso estar atento para criar possibilidades que, aos poucos, gerem condições para que haja modificações na sociedade, no meio a qual a criança está inserida. Nesse processo, a educação escolar precisa ter participação efetiva, atuando como agente refletivo e de transformação, afinal, é indiscutível que é através da brincadeira e da imaginação que a criança consegue ir além da realidade, transformando o faz de conta em experiências vivenciadas. A escola além de inserir estas atividades recreativas e pedagógicas no planejamento escolar deve incentivar também os pais e familiares neste projeto, visando o desenvolvimento integral da criança.

 Segundo Volpato (2002, p.224-225) “o brinquedo além de orientar a brincadeira também lhe traz conteúdo e matéria”. O referido autor também afirma na mesma obra, que “só podemos brincar com aquilo que temos e a criatividade, tal como a evocamos, permite, justamente, ultrapassar esse ambiente sempre particular e limitado”.

 Refletindo sobre estas condições, cabe pensar no que as crianças possuem, o que evocam, como ultrapassar limites? O que se vê nos dias de hoje é uma realidade em que elas não usam a criatividade para brincar, preferem receber objetos e brinquedos prontos e a falta de imaginação deixa a brincadeira sem atrativos a acabam por brincar muito pouco, acomodando se a uma infância misturada à vida adulta, pois, estão inseridas em uma realidade prodígio tendo acesso a todo tipo de informação e participando da vida adulta.

“A criança não brinca numa ilha deserta. Ela brinca com as substâncias materiais e imateriais que lhe são propostas, ela brinca com o que tem na mão e com o que tem na cabeça” (BROUGÈRE, 2001, p.105).

 O brinquedo como objeto em si é um dos maiores instrumentos para fluir a imaginação, então a escolha do brinquedo adequado é fundamental para a estimulação da criança. Através dele ela vai criar seus fundamentos e, engana se quem pensa que é preciso ter brinquedos de qualidade para ter efeito, o brinquedo pode ser qualquer objeto manual sem risco a criança, pode ser confeccionado, reciclável ou industrial tudo vai depender da criança ou do mediador da brincadeira.  Por exemplo, uma criança pequena pega uma tampa de panela e parece ser bem mais interessante que seu chocalho, um pote se transforma em chapéu e assim por diante a imaginação da criança vai além do que o adulto pode imaginar.

 […] No brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além do seu comportamento diário; no brinquedo é como se ela fosse maior do que ela é na realidade. Como no foco de uma lente de aumento, o brinquedo contém todas as tendências do desenvolvimento sob forma condensada, sendo ele mesmo uma grande fonte de desenvolvimento. (VIGOTSKI, 2007, p.134).

 Hoje em dia temos muitas formas pedagógicas de brincar e muitos recursos tecnológicos também, mais não poderíamos falar de recreação sem relembrar alguns brinquedos e brincadeiras que marcaram épocas. Como pular corda, pular amarelinha, como os saudáveis jogos de caixa, as brincadeiras de roda como “ciranda cirandinha”, passa passará, pé de lata, jogos com bola como o caçador, jogo de bolita, bibolquer, telefone sem fio e inúmeros que poderíamos citar..

  A brincadeira além de ser uma atividade fundamental no desenvolvimento infantil é também um direito da criança além de ter suma importância em seu crescimento físico e mental.

Brincando no contexto escolar

 É preciso enfatizar que a escola e instituições de educação infantil estando inseridas em um contexto social têm o dever de promover a socialização e integração da criança através da brincadeira como forma de aprendizado, pois conforme Piaget (1971) a criança se expressa através da brincadeira, sendo o brincar o principal modo de expressão.

Sendo o brincar fundamental ao desenvolvimento na educação infantil nesta primeira etapa escolar o professor é o grande mediador desta fase, é preciso brincar com qualidade. Cabe ao educador a escolha adequada da brincadeira para cada fase da criança respeitando suas limitações e conflitos.

 Segundo a lei LDB (9394/1966), Art.29 afirma que:

 A educação infantil, primeira etapa de educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. (BRASIL,1996, P.XX)

 É preciso avaliar cada tipo de brincadeira e traçar metas para alcançar seus objetivos, proporcionando um ambiente adequado para cada tipo de brincadeira.  A escola a cada dia aumenta a sua responsabilidade sobre esta questão, pois, com progresso da humanidade e principalmente o aumento da mulher no mercado de trabalho, mais mães estão fora de casa, atribuindo cada vez mais cedo o ingresso de seus filhos em instituições escolares.

 Assim concluímos a importância do brincar porque através das brincadeiras as crianças criam possibilidades de conviver com seus sentimentos, demonstrando visão das coisas a sua volta, com preocupações e pensamentos que não conseguem definir com palavras, então expressam em suas representações. Cabe aqui salientar que existe uma grande preocupação por parte dos filósofos, educadores, psicólogos e estudiosos do meio em definir o conceito de brincar. Spodek & Sarasho (1988 apud FEIN, 1998, p.210) afirma que é muito “difícil definir a brincadeira,mas, em certo sentido,ela se auto-define”.

Referências

 BRASIL.Lei9394/96-Diretrizes E Base da Educação Nacional, de 20 de Dezembro de 1996.

 PIAGET, J A Formação do Símbolo na Criança:Imitação,jogo e sonho, imagem e representação.Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar,1971

 PIAGET, Jean.A psicologia da criança. Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 1998. REVISTA EDUCAÇÃO E SOCIEDADE, Campinas, vol.23, n.81,p.217-226,dez,2002

 VOLPATO, Gildo. Jogo, brincadeira e brinquedo: usos e significados no contexto escolar e familiar. Florianópolis; Cidade Futura,2002

 VOLPATO, Gildo. O jogo e o brinquedo; reflexões a partir da teoria crítica.IN: Revista Educação e Sociedade, Campinas, vol.23,n.81,p.217-226,dez.2002.

 BROUGÈRE, G. Jogo e educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

 SPODEK, B.7 SARASHO,O.N(1998). Ensinando crianças de três a oito anos. Porto Alegre; Artmed.

 LEONTIEV, A. N. Uma contribuição à teoria do desenvolvimento da psique infantil. In: VIGOTSKII, L. S.; LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. 10ª ed. São Paulo: Ícone, 2006. Cap.4.

 

 

 

 

 

Fabia Maria Saraiva da Silva

Arroio dos Ratos - RS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *