A Tecnologia da Informação como Fator de Sobrevivência e Vantagem Competitiva

As alterações na dialética da economia geraram importantes mudanças no cenário econômico-social em países de todo o mundo. As indústrias manufatureiras colapsaram e o valor dos produtos passou a ser atribuído pouco a pouco ao conhecimento (SILVA, et al, 2010). Sob esse contexto, evidenciam-se como consequência novas práticas de produção, comercialização e consumo de bens e serviços, além do fortalecimento de arranjos cooperativos (Sistemas Locais de Inovação) e da intensificação do uso da informação nos processos decisórios.

Do ponto de vista da gestão empresarial, Bessant et al.(1999)apud Lastres & Ferraz (1999) entendem o processo de aprendizado como constituído de três componentes principais: a acumulação e o desenvolvimento de “competências centrais”, responsáveis pela diferenciação e potencial vantagem competitiva; a dimensão temporal do aprendizado como um processo contínuo e cumulativo (de longo prazo); e sua idiossincrasia, que o torna propriedade de uma organização e dificilmente replicável por outra.

O conflito entre a velocidade no acesso às informações e a capacidade das organizações em assimilá-las e torná-las úteis às tomadas de decisão, configurando de fato o aprendizado, pode ser contornado pela adoção de processos de gestão estruturados e pelo alinhamento da tecnologia da informação com o planejamento estratégico, o que não é tarefa fácil.

Desenvolvimento

A tecnologia da informação nas organizações Durante muito tempo, o uso da tecnologia da informação pelas empresas esteve associado apenas ao emprego de hardwares e softwares que simbolizavam o status de “crescimento empresarial”, sem fundamentalmente incorporarem esses recursos a aplicações objetivas e que agregassem valor ao negócio.

Atualmente, a TI como suporte ao sistema de informação é vista como responsável pela integração de toda a cadeia valor da empresa e do seu ambiente externo, ampliando suas fronteiras organizacionais e contribuindo para o seu sucesso ou, quando mal implementada, para o seu fracasso. A TI só adquire relevância estratégica em uma organização quando possibilita mapear seus processos de negócio com eficiência e eficácia; aplicar as melhores práticas e metodologias de gestão de suas informações; e dimensionar e estruturar corretamente as necessidades específicas de suas atividades operacionais, gerenciais e de mercado.

De acordo com Plachta (2013), a aplicação da TI deve possuir os seguintes objetivos: Apoiar os processos de negócio, garantindo sua continuidade; auxiliar na tomada de decisões; aumentar a produtividade; otimizar a troca de informações internas e externas; garantir a segurança das informações; buscar novos negócios; e muito mais, ou seja, “maximizar o negócio”.

Alinhamento Estratégico da Tecnologia da Informação

Desde a década de 40 evidencia-se a importância e a necessidade de integrar processos em alto nível, alinhá-los e comunicá-los com seu mecanismo de controle, sobretudo quanto à realização de tarefas cada vez mais complexas e tecnicamente desafiadoras (FAYOL, 1949 apud AKABANE, 2012). Dessa forma, a teoria sobre o alinhamento estratégico propõe um processo contínuo e cíclico que pode ser catalisado para identificação de indicadores de desempenho, modelagem de empresas e governança administrativa.

Solução esta permitida com a escolha adequada e oportuna das tecnologias de suporte ao sistema de informação, para que as ações mantenhamse congruentes com as metas e necessidades da empresa. Um fator crítico para o sucesso desse alinhamento está no grau de envolvimento da alta administração, bem como da participação dos responsáveis pelo TI na formulação do próprio plano de negócios.

Chan et al. (2006) verificam que, quanto mais sofisticado o planejamento, maior o envolvimento de pessoas de diferentes áreas de especialização e, consequentemente, maior o nível de conhecimento compartilhado e alinhamento.

Sob esse ponto de vista, o alinhamento estratégico pode parecer relacionado a apenas desafios internos. Mas, além disso, deve influenciar e ser influenciado por organizações parceiras ao longo de toda rede de stakeholders. O modelo de alinhamento de Baets (1992) retrata a interação cíclica entre a estratégia de negócio; a infraestrutura e os processos organizacionais; a infraestrutura e os processos de Sistema de Informação e a estratégia de TI.

Esse modelo considera o alinhamento em um contexto mais amplo, incluindo fatores como concorrência, mudança organizacional, questões de recursos humanos, plataforma global de TI e processos de implementação de SI, ainda pressupondo a conscientização dos participantes sobre o ambiente econômico e a estratégia corporativa.

A TI como fator de vantagem competitiva

Atualmente, mesmo diante de inúmeras opções de ferramentas de TI, algumas empresas ainda se utilizam dos sistemas de informação apenas para a redução de custos por meio da automação e aumento da eficiência de processos. Além disso, adotam tecnologias incompatíveis com seu negócio, manipulam inadequadamente os dados gerados, e não conseguem interligá-los com seus ambientes externos (concorrentes, clientes, fornecedores, filiais etc.).

A fragmentação das informações e a inconsistência de dados armazenados em um ou mais sistemas também comprometem a agilidade e assertividade necessárias à análise.

Portanto, uma característica fundamental em qualquer sistema de informação é a integração total de todos os processos que permeiam o relacionamento entre a organização e seus agentes externos. As diversas aplicabilidades do TI conformaram ao longo do tempo soluções específicas, a exemplo do SCM (Supply Chain Management), CRM (Customer Relationship Management), Sistemas ERP (Enterprise Resource Planning) e Business Intelligence. 3.1 Supply Chain Management (SCM) Segundo Ching (2001), o Supply Chain Management caracteriza-se por todo esforço envolvido nos diferentes processos e atividades das empresas para criar valor ao seu consumidor final por meio de produtos e serviços.

Controlando, de forma integrada e planejada o fluxo de mercadorias, informações e recursos, desde os fornecedores até o cliente final, administrando as relações dentro da cadeia logística de forma cooperativa e para o benefício de todos os envolvidos. A diversificação do perfil de consumidores; o aumento da competitividade nos setores e da complexidade dos produtos, processos e serviços; além da abertura de mercados, implicaram na incapacidade de qualquer organização em sobreviver sem parcerias estratégicas.

Em tempos de estratégias de baixo custo, fornecedores e parceiros de tecnologia, antes envolvidos apenas nas fases finais de projetos, passaram a desempenhar um papel fundamental ao longo de todas as etapas dos mesmos. Parcerias com fornecedores implicam na troca de um grande volume de informações que vão desde a previsão e o gerenciamento da demanda e alocação da capacidade produtiva, à própria gestão do conhecimento oriundo de fontes diversas e alheias ao escopo de uma só empresa.

Além das maneiras supracitadas, uma forma de parceria cada vez mais comum é a realizada entre co-desenvolvedores, fornecedores exclusivos, fabricantes e operadores logísticos. Para surtir resultados econômicos significativos, a troca de informações deve apresentar o mínimo de falhas possível, sob a pena de gerar a dependência de estoques excessivos, paradas de plantas, atrasos de entrega e defasagem tecnológica. Por esses motivos, tecnologias que auxiliam a integração, compilação e análise dessas informações tornaram-se determinantes para o sucesso dessas redes de cooperação e pelo avanço tecnológico na velocidade exigida pelo mercado.

Customer Relationship Management (CRM)

Apenas estratégias de baixo custo não garantem o posicionamento de uma empresa no seu mercado em longo prazo. O esgotamento de alternativas direcionadas a esse objetivo tende, rapidamente, à equiparação e estagnação de um setor, quando todas as organizações ali inseridas atingem o mesmo patamar de redução. Como é possível observar, os mercados (alguns mais, outros menos) são essencialmente dinâmicos e isso se deve em grande parte à adoção de estratégias de diferenciação pelas empresas. Esse tipo de estratégia relaciona-se diretamente com o conceito de gestão do conhecimento, principalmente em razão da impossibilidade de se diferenciar, sem inovar.

Novamente, as parcerias estratégicas são relevantes, no entanto, projetos responsáveis pela diferenciação precisam, invariavelmente, estar relacionados às necessidades dos clientes. A adoção de tecnologias de suporte à gestão do relacionamento com clientes proporcionam a análise das atividades relacionadas às vendas, marketing, serviços de pósvenda, bem como na aferição de falhas internas que implicam em insatisfações e consequente perda de mercado.

O processo inverso também é valioso. Quando a empresa se utiliza de informações internas e operacionais para a construção de um cenário completo de informações e indicadores, garante a abordagem mais adequada das atividades da “linha de frente”, diretamente relacionada com os consumidores.

As aplicabilidades mais comuns de Sistemas CRM são: canais de comunicação para consulta e compras, histórico e informação sobre vendas, segmentação de perfis, relatórios de satisfação, reclamações, solicitações, prazos, entre outros.

Enterprise Resource Planning (ERP)

Os sistemas ERP, largamente empregados, cuidam da integração e compilação de todos os dados provenientes dos processos da organização em uma só plataforma. Dessa maneira, minimiza ou mesmo anula a possibilidade de divergências de informações e permite o acesso rápido, seguro e em tempo real, a baixos custos, de dados que darão suporte às decisões gerenciais e estratégicas.

Para trabalhar com preços competitivos, a empresa deve eliminar seus desperdícios (de material, tempo, mão-de-obra, capacidade), e para manter a empresa enxuta é preciso prover informações de qualidade. Para que o mercado ofereça boa aceitação dos produtos e serviços, não basta apresentar um preço competitivo, mas deve oferecer também produtos que atendam às suas necessidades.

Ter produtos de qualidade e preços competitivos pode aparentemente ser encarado como uma exigência antagônica, mas é uma exigência do público. Além disso, ainda é fundamental preservar a margem e garantir a rentabilidade mínima em cada negociação. Todos esses fatores estão inseridos em um modelo de altíssima complexidade que exige aos executivos ter informações, novamente, úteis (Gonsales, 2011).

Segundo Dourado (2008) dentre as vantagens competitivas esperadas com a implementação de um sistema ERP, destacam-se: eficiência operacional (76%), suporte a negócio global (12%), crescimento (5%) e redução do custo de TI (4%).

Business Intelligence

Embora todos os sistemas citados anteriormente possam gerar informações de cunho estratégico, os sistemas de Business Intelligence, desenvolvidos de forma customizada para cada caso ou organização, consolidam um conhecimento mais abrangente sobre os fatores que afetam ou podem afetar os negócios da organização e da sua cadeia de valor.

Dessa forma, permite que os dados gerados pelos demais sistemas sejam tratados e gerem informações mais valiosas, geralmente obtidas por meio de simulações, análise de padrões de comportamento e consumo, identificação de novos nichos de mercado, análise de indicadores financeiros, entre outros. A um nível estratégico, os sistemas de Business Intelligence tornam possível a definição de metas e objetivos, assim como o seu respetivo acompanhamento, permitindo a realização de relatórios diversos e consistentes.

A um nível tático permitem simular ações futuras e modificar aspetos organizacionais, financeiros ou tecnológicos do desempenho da organização, a fim de ajudar a alcançar os seus objetivos estratégicos. Por último, a um nível operacional, os sistemas de Business Intelligence são utilizados para executar análises ad-hoc e responder a questões relacionadas com operações das atividades da organização (clientes, vendas, fornecedores) (Olszak et al. 2007 apud Costa & Santos, 2012).

Conclusão

Com base nos fatores apresentados, a tecnologia da informação pode desempenhar um papel decisivo para a vantagem competitiva das organizações, quando:

· Permite o emprego da engenharia simultânea no projeto de produtos através da agilidade no fluxo documental e reduz, como consequência, problemas de incompatibilidade entre os interesses das áreas envolvidas, além de acelerar o lançamento de inovações.

· Compila e trata os requisitos, reclamações e sugestões dos clientes internos e externos, ao longo de todo o ciclo de vida dos produtos.

· Facilita as atividades de gestão da qualidade através do controle de procedimentos operacionais, registros e especificações, garantindo a segurança das informações, o uso correto de versões, atualizações e controle de cópias.

· Unifica os sistemas de medição de desempenho, conectando indicadores de tendência a indicadores de resultado, também reduzindo o desperdício de tempo e recursos humanos no tratamento desses dados.

· Viabiliza a simulação e otimização de processos e produtos com o auxílio de ferramentas estatísticas, matemáticas e computacionais, por meio de uma interface mais simples e confiável.

· Permite o acompanhamento de tendências financeiras e não-financeiras, a dinâmica dos mercados e dos setores, além de facilitar a vigilância tecnológica, normativa e o benchmarking.

· Garante a fluidez de processos produtivos; a assertividade do controle de estoques e distribuição; e a comunicação entre as áreas diretamente relacionadas com o cliente (como marketing, assistência técnica e vendas) com as áreas operacionais.

· Permite a gestão do conhecimento, por meio da retenção do aprendizado e do controle e histórico de mudanças.

· Permite a execução de projetos multiplantas, quando as áreas envolvidas se encontram geograficamente distantes, o que também fortalece parcerias estratégicas e tecnológicas entre países.

· Promove a abertura de mercados e a possibilidade de comercialização de produtos e serviços em nichos antes inacessíveis. Todas as organizações precisam estar conectadas as movimentações em seu contexto, independentemente do seu setor.

O seu desempenho em delinear esse ambiente competitivo, prospectá-lo, identificar suas fraquezas e ajustar suas estratégias às mudanças faz com que as tecnologias da informação assumam um papel de insumo crítico para a vantagem competitiva. Esse papel será, de forma contínua, legal e sistemática: identificar, coletar, tratar, analisar e disseminar, em tempo hábil, análises consistentes e informações qualificadas para apoio à decisão. Além disso, proverá um sistema capaz de detectar os sinais de um concorrente ou outro player importante que forneçam uma indicação direta ou indireta de suas intenções, motivações e metas. Adotada como ferramenta estratégica, a TI pode alterar, portanto, a forma como as organizações lidam com seu mundo.

Referências

AKABANE, G.K. Gestão Estratégica da Tecnologia da Informação. São Paulo: Atlas, 2012.

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CHAN, Y. E.; SABHERWAL, R.; THATCHER, J. B.“Antecedents and Outcomes os Strategic IS Alignment: an empirical investigation”.IEEE Transactions on Engineering Management, vol. 3, n° 51, p. 27-47, 2006.

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DOURADO, A. Implantação de um ERP: Vantagens e Dificuldades. Congresso da Sociedade Brasileira de Computação, 2008. Anais…Belém do Pará: SBC, jul. 2008. 24 p.

GOMES, E; BRAGA, F; LAPA, E.A Construção de um Sistema de Inteligência Competitiva.

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PLACHTA, C. A tecnologia no suporte a Gestão da Informação e aos Processos de Negócios Inteligentes.

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SILVA, C.E.L; et al. Inovação Sustentável: Uma Revisão Bibliográfica. Congresso Nacional em Excelência em Gestão, 2010. Anais… Disponível em: . Acesso em: set. 2012.

Samara Aparecida Arrates

Brasília - DF

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