Arte na pele

Minha tela em branco, arte na pele

A pratica da ornamentação da pele é um hábito tão antigo quanto a civilização, tendo sido encontrada em múmias do período entre 2000 e 4000 a.C. Não se sabe ao certo sua origem. Alguns autores acreditam que ela possa ter surgido em várias partes do globo, de forma independente; outros creem que ela tenha sido dinfudida pelo mundo com as grandes navegações dos países europeus.

O presente trabalho procura investigar o tema das tatuagens a partir da inscrição de marcas no corpo. Parte do reconhecimento de que o grupo de pessoas tatuadas vem crescendo a cada dia o que indica a relevância da abordagem, devido as suas multiplicações. Tem como objetivo compreender as motivações e percepções dos tatuados acerca do uso de um desenho inscrito definitivamente em sua pele. Diante desses questionamentos, este estudo objetiva colher o discurso do tatuador, sua história, seu conhecimento e suas vivencias em relação ao tema, bem como entender sua percepção acerca da tatuagem na sociedade atual.

Tatuar arte de marcar almas e sentimentos

Somos constantemente marcados por atos e fatos que junto constroem o que pensamos e quem somos, e o registro dessas experiências é o que nos mantêm ligados a elas. Há milênios, para imprimir o que é de mais significativo individualmente, utilizamos a tatuagem para marcar nossos corpos e registrar nossas memorias e crenças.

Tatuamos a pele e marcamos a alma na mais completa tentativa de registrar nossas vidas e deixar nossos passos, tatuando muito do que somos feitos. Mas se antes era a pele que servia de tela para a arte corporal, hoje ela é qualquer outro corpo que se pode dar vida através dela, construindo um registro de tudo aquilo que nos é importante.

As formas utilizadas para tatuar foram se modificando com o passar dos anos e na década de 1970 houve a substituição das agulhas caseiras por maquinas elétricas. A tatuagem perdeu o status de atividade artesanal e passou a ser vista como uma técnica, conforme afirma Pérez (2005). Na década de 1990 os estúdios começam a surgir e a atividade antes realizada em casa, bares, festas e presídios, começou a assumir o espaço comercial. Os estúdios apresentam maior cuidado com a higiene, utilizam materiais descartáveis, apresentam catálogos com tatuagens já feitas e dão ênfase aos trabalhos mais artísticos.

A máquina de tatuagem moderna foi criada por Percy Waters em 1929. Em 1979 Carol Nightingale reinventou a máquina de Percy Waters, desta vez mais potente, robusta e constituída de mais peças, semelhante ás maquinas modernas atuais. Estas maquinas utilizam suas bobinas presas a um chassi, recebem a eletricidade controlada por uma fonte e são acionadas por um pedal, e fundamental que o tatuador domine as técnicas de regulagem da máquina.

Meu interesse pela arte de tatuar surgiu de várias fontes que, entrelaçadas, levaram-me a fazer este trabalho. Há uns dez anos, passei em fazer uma tatuagem, algo não comum pois naquela época era muito difícil ver pessoas tatuada. Hoje saindo pelas ruas é possível ver pessoas tatuadas, é algo mais comum do que anos atrás.

Tatuagem é a esterilização dos equipamentos e estúdio  

Quando você olhar para a tatuagem de uma pessoa, estará vendo a tinta pela epiderme, ou camada exterior da pele. A tinta está de fato na derme que é a segunda camada da pele. As células da derme são mais estáveis que as células da epiderme, assim a tinta da tatuagem se manterá sempre no lugar, com desvanecimento secundário e dispersão, para a vida inteira de uma pessoa.

Uma boa tatuagem exige um traço firme e constante, o tatuador deve encontrar o equilíbrio ideal entre velocidade, pressão e batida da máquina para obter um traço bem definido. Deve-se encontrar também, a voltagem ideal liberada pela fonte para cada trabalho. Esta voltagem pode variar de acordo com a região do corpo a ser tatuada.

Um tatuador profissional exige muitas responsabilidades e ética. O tatuador é responsável pela qualidade do trabalho, pela segurança do cliente, pela administração do estúdio no qual for dono do loca, pela manutenção, limpeza e assepsia do estúdio, reposição de equipamento e suprimentos, pelo bom atendimento e transmissão de informações a respeito da tatuagem adquirida ao cliente, pela solicitação do alvará de funcionamento e pela autorização cedida pela Vigilância Sanitária local.

Durante anos as profissões de tatuador entre outros nessa área vêm ficando à margem e até mesmo numa certa clandestinidade, por não terem uma regulamentação e fiscalização adequada. Com o crescimento do setor temos a necessidade de formalizar os procedimentos, até porque o número de pessoas que se colocam dia a dia neste mercado é muito grande, e há um grande risco de que com um atendimento sem um conhecimento dos procedimentos que devem ser tomados, sejam causados problemas que nos afeariam como um todo.

O processo da tatuagem cria uma ferida superficial, cada vez que a tinta é injetada na pele, pela agulha. Qualquer ferida tem potencial para infecções, portanto é muito importante a esterilização dos equipamentos para tatuar, os tatuadores esterilizam alguns materiais descartáveis e reutilizáveis, como as biqueiras. A esterilização combinada com o uso de luvas, óculos de proteção e jaleco (EPI) garantem a segurança do tatuador e de seus clientes.

É de responsabilidade do estúdio eliminar as possibilidades de contaminações, inclusive das tintas porta batoques, biqueiras, agulha hastes e maca. Muitos produtos são vendidos devidamente embalados, estes produtos são esterilizados pelo tatuador do mesmo modo, e devem ser abertos na presença do cliente.

Referências bibliográficas de autores que falam sobre o tema

“Por conta da chamada antropologia criminal, surgida a partir da segunda metade do século XIX, as conotações pejorativas haviam se cristalizado na Europa católica. Da Itália até Portugal, tatuagem era coisa de cidadão de segunda classe. O mesmo não acontecia nos países protestantes, como Alemanha, Holanda e Inglaterra, onde reis, imperadores e aristocratas também adornavam sua pele” (MARQUES, 2009, pg.01).

“No ano de 1967, tribos urbanas, roqueiros, motoqueiros, hippies e, de maneira mais radical, os punks e os skins foram apropriando-se desse imaginário, adotando a tatuagem como uma marca corporal através da qual ostentavam publicamente sua vontade de romperem com as regras sociais e de situarem-se deliberadamente à margem da própria sociedade” (PÉREZ, 2005, pg.01).

[…] a tatuagem já foi usada para identificar bandidos e enfeitar poderosos; para juntar tribos e afugentar inimigos; para mostrar preferências e esconder imperfeições. O que não mudou quase nada foi a técnica de aplicação de tinta na pele. Passados mais de 4 mil anos, ela ainda é feita por meio de agulhas que perfuram a derme. […]. Perseguida em vários momentos da história, a prática foi banida por decreto papal no século 8 e na Nova York do século 20. Apesar disso, é difícil encontrar quem nunca tenha pensado em fazer uma. (Paola Bello, 2010).

“A representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeitos. É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos” (WOODWARD, 2014, p.17 – 18).

“A tatuagem opera como um símbolo: engloba um gosto, uma vontade, uma posição que só pode ser compreendida a luz da interpretação daquilo que é o espaço que rodeia o indivíduo. ” (BAPTISTA, 2010).

“O sentindo da palavra modismo aqui é o de imitação, que revela um sujeito incapaz de pensar por si e ter opiniões e gostos próprios. Esta valorização da originalidade da tatuagem sugere que a marca não tem apenas um uso estético, mas também um signo de distinção, criando uma hierarquia na qual quem tem uma tatuagem original é superior a quem não tem, porque é uma pessoa mais individualizada, que expressa sua autonomia na própria pele, instância imediata de comunicação de si com o mundo. A tatuagem serve, na sua qualidade de signo de distinção, como signo de individualidade. Estabelece-se, portanto, uma hierarquia entre a uniformização e a individualização, em que a última emerge como mais legítima e valorizada” (OSÓRIO, 2010, p.128).

“O que os marinheiros fizeram, de fato, foi retirar o costume deste universo religioso cristão e torná-lo um costume profano popular, no sentido de camadas populares e no sentido de ter sido disseminado. O renascimento da tatuagem no Ocidente é um fenômeno que diz respeito a sua disseminação entre camadas sociais determinadas, a partir do contato entre marinheiros e nativos do Pacífico, fora de seu escopo anterior de prática religiosa cristão. ” (OSÓRIO, 2006: 20).

“A tatuagem não interfere em nada na sua vida profissional a menos que você se sinta incapacitado de exercer algum cargo ou função por ter uma tatuagem. Esse problema pode ser tratado por um psicólogo, pois revela insegurança sua”. Algumas empresas visam o cultivo da diversidade e respeito no ambiente corporativo para que a empresa funcione bem, nas quais os profissionais são incentivados a serem mais ágeis e menos formais (AGUIAR, 2013).

Tinta, arte, sentimentos e tatuagem

O método de marginalização da tatuagem deu início nos anos de 1980 e um certos fatores podem ser assentados como responsáveis por isto: a adesão à prática por parte de grupos da classe média, como os surfistas; a profissionalização da profissão do tatuador e a criação de lojas denominadas “estúdios de tatuagem”, com ambientes limpos e aparelhos descartáveis e esterilizados, em contraste ao ambiente caseiro e deletéria onde primeiramente a tatuagem se realizava; a posterior elevação ao status de arte à tatuagem, ocasionando ao tatuador o título de artista da pele, de entendedor ou expert na técnica da tatuagem. Apreensões com o aspecto do profissional, saúde dos tatuadores e tatuados e com a qualidade artística da tatuagem produzida, auxiliaram no conquistar do novo público que antes rejeitava a tatuagem.

Os mais jovens observam os tatuados de forma distinta, eles têm uma visão mais positiva, especialmente quando se trata de trabalho. Apresenta-se a impressão de que o fato da pessoa exibir muitas tatuagens fosse um símbolo de êxito profissional ou de uma pessoa muito de bem com a vida; no entanto para as pessoas mais velhas, conservadoras e tradicionais, a tatuagem ainda pode parecer própria dos desclassificados, loucos etc.

A partir do período que se tem nível técnico de tatuagem muito mais avançado, as classes medias e alta, começam a ver a tatuagem com uma visão artística. Hoje em dia, com a internet e a globalização, por resultado, você tem uma ampla forma de se chegar a informação da forma rápida e muito maior. E a tatuagem foi muito amparada com esses meios de comunicação podendo assim desmitificar o preconceito que se tenha em cima da tatuagem.  

Sendo assim futuro tatuado passa, então, à procura pelo profissional que concretizará a tatuagem; hoje em dia é bastante comum que a busca e o primeiro contato sejam feitos através de redes sociais como Facebook e Instagram, mas ainda acontece também como em anos passados: indicações de amigos e conhecidos ou visitas a estúdios que venham a estar no caminho.

No decorrer há uma conversa para decidir o que verdadeiramente irá para a pele, em qual local do corpo, tamanho, cores e toda a questão estética. É aí que se inicia o trabalho do tatuador. Na hora da tattoo o profissional separa todos os materiais que serão necessários: luvas, máscaras, máquinas, tintas, agulhas, biqueiras, papel toalha, vaselina, água com sabão. Tudo aquilo que não é descartável ou esterilizável é embalado com plástico filme.

Esses riscos na pele de homens e mulheres falam de suas pretensões, suas horas de lazer e a fantasia da sua arte e a crença na imortalidade dos sentimentos transformam-se assim na exteriorização da alma de quem os mostram. Hoje em dia as tatuagens estão no corpo de pessoas de idades e classes sociais variadas, bem como no ambiente artístico e também é muito utilizada na área estética para a cobertura de cicatrizes ou manchas, delineamento dos olhos e lábios por meio da denominada maquiagem definitiva.

Todo profissional seja em qualquer área quer o sucesso na sua carreira como também tem esse anseio é o tatuador. Existem diversos fatores que influência no sucesso da carreira profissional. Um desses fatores é a imagem profissional. No início, essa imagem parece ter relação apenas com o fato de se vestir bem. No entanto, investir na imagem profissional vai muito além, pois é uma imagem pessoal que é construída com a soma de diversos aspectos: a postura como profissional; se é uma pessoa boa ou má; é competente ou inapta; é honesta ou de caráter fraco; é inteligente ou nem tanto, e assim por diante. Isso influencia no julgamento do trabalho do tatuador sobre seus clientes.

A arte vai mais a frente: é algo íntimo. Abrange o compartilhamento de sentimentos e sensações. Resulta em dor e compartilhamento dessa dor; envolve sangue e o toque consentido no corpo de alguém estranho. No período da tatuagem, é como se fosse designado um laço entre quem tatua e quem é tatuado. Duas histórias se cruzam e passam a fazer parte uma da outra. A marcação não é apenas física. É constituída uma relação de confiança entre tatuador e tatuado. Mesmo sem assinar o trabalho, o artista vai estar ali, presente em um corpo desconhecido pelo meio de sua criação.

Referências

AGUIAR, M. Setores formais abrem espaço para tatuagens e outras expressões visuais. Disponível em: http://economia.ig.com.br/carreiras/2013-08-21/setores-formais-abrem-espaco-para-tatuagens-e-outras-expressoes-visuais.html . Acesso em: 19 agosto. 2018.

MARQUES, Toni. Questões da pele: Pinturas indígenas, cicatrizes de escravos, moda de marinheiros. A tatuagem fez história no Brasil. 2009. Disponível em:http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/questao-de-pele. Acesso em: 22agosto. 2018.

PÉREZ, Andrea Lissett. A identidade à flor da pele. Etnografia da prática da tatuagem na contemporaneidade. 2006.

BELLO, P. Conheça a história da tatuagem. Disponível em: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI132738-17770,00-CONHECA+A+HISTORIA+DA+TATUAGEM.htm . Acesso em: 18 Agosto. 2010.

BAPTISTA, Raquel Leonor Pimenta. A identidade estampada na pele: o quotidiano de um estúdio de tatuagem e body-piercing em Lisboa. Lisboa: ISCTE, 2010.

OSÓRIO, Andrea. Tatuagem de amor. In: GOLDENBERG, Mirian. O corpo como capital: gênero, sexualidade e moda na cultura brasileira. 2. Ed. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2010.

. Gênero da Tatuagem: continuidades e novos usos relativos à prática na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS/PPGSA, 2006. Tese.

WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 14. Ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. P. 7 – 72.

Mara Jessica Carlos da Silva

São Luís dos Montes Belos - GO
Professora de Educacao Infantil. Cursando Pós-Graduação em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Graduação em Licenciatura Plena em Pedagogia.curso de pintura em tecido, curso de corte e costura, curso de informática.

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