Autismo: A História

      A criança autista indiscutivelmente interroga. Não há dúvida que, no mundo atual, pleno de “performances” e “resultados”, que promete o “sucesso” e a “felicidade”, a criança portadora de autismo vem apontar o furo dessa promessa. A ideia da mudança rápida e do descartável é incompatível: não toleram nem o imprevisto e nem mudanças, e, se não podemos prestar atenção aos mínimos detalhes de seus movimentos em relação ao outro, não temos chances. O fenômeno do autismo nos faz pensar, falar, escrever… “Atualmente é considerado portador de autismo aquela criança que tem dificuldades específicas de se comunicar e de se socializar, que apresenta interesses restritos e comportamentos estereotipados, tendo iniciado com essas dificuldades antes dos 3 anos e fixado até idade adulta” .

      Segundo Maleval o termo autismo ficará marcado por sua origem na clinica da esquizofrenia, quando foi definido por Bleuler, para falar daquelas crianças que se voltavam para elas próprias num mundo auto-erótico, “fica difícil até hoje apreender o termo autismo sem passar pelo prisma deformante da psicose” .

       Um pouco da historia do autismo Hocchman4 historia o autismo partindo do conceito psiquiátrico de idiota, do homem privado de razão, isolado da sociedade com uma linguagem desprovida de significação, o termo é precursor tanto da noção de esquizofrenia infantil quanto do conceito de autismo . Seguindo a saga da exclusão, o idiota foi, dentre os pacientes da psiquiatria, dos mais negligenciados, pelos administradores e psiquiatras que queriam o excluir de seu território. Mas o autismo, nesse aspecto difere da idiotia, pois como fenômeno, desperta entre os profissionais uma irresistível necessidade de tomá-lo para si: quem tem a cura, quem tem o melhor tratamento, que descobre sua etiologia, enfim, o autista tem promovido as mais diversas disputas e contradições.

      Enfrentamos no momento atual, talvez, o ápice da diferença entre psicopatologia e organicismo e, portanto, a tendência a colocar o autismo a uma condição de handcap esteja forte, distanciando-o das abordagens mais psicodinâmicas. Uma primeira versão do autismo, portanto, foi cunhada por Bleuler em 1911, que a define como uma função complexa em que a relação com a realidade é perturbada ou suspensa, em consequência de uma perturbação primaria de associações e surgimento de emoções e imagens fugidias.

      Esse retorno ao sujeito ao seu mundo interior, essa submissão imaginária, essa espécie de adesão a uma nova realidade que vem recobrir a realidade tomada a distancia, representa uma segunda spaltung, onde o sujeito não é apenas dividido, mas separado do seu mundo.

 Um novo olhar

      Depois de trinta anos de trabalho da corrente psicodinâmica e psicopatológica, com influencias da psicanálise, uma reviravolta se processa no campo da saúde mental. Essa reviravolta se denomina um progresso científico e se caracteriza por um retorno ao organicismo a as teses de degenerescência, reformuladas na linguagem da genética moderna, e o que esse movimento tem de maior consequência é transpor a ideia do autismo como doença (processo evolutivo, ligado a vários agentes patógenos, que mesmo que ainda possam ser incuráveis, se trabalha no sentido de encontrar a sua cura), para a ideia do autismo como handcap (desviação fixa da norma, composta de um déficit e uma incapacidade, que coloca o individuo em situação de desadaptação com o meio, necessitando uma reabilitação). Esse deslizamento de conceitos torna o autista um ser passivo, que, considerado autista um dia, sempre será autista. Essa orientação se inicia nos anos 60 nos Estados Unidos. Em 1971 Kanner funda, a pedido de um pai de autista e editor, uma revista Journal of autism and childhood schizofrenia, que nesse momento tinha colaboradores importantes neurologistas, psicanalistas, psiquiatras. A psicanálise e seus representantes estavam entres seus autores. Mas cinco anos mais tarde, sem nenhuma novidade nas descobertas sobre o autismo e quando ainda se mantinha a ideia da diversidade dos casos e consequentemente da necessidade da diversidade de práticas, a revista fundada por Kanner muda radicalmente, torna-se journal of autism and developmental disorders e Eric Schoppler toma sua direção como editor. Nesse editorial afirmam que segundo “numeráveis pesquisas” o tratamento e a compreensão do autismo dependem de fatores do desenvolvimento, além de colocarem ênfase no retardo mental que seria sofrido supostamente pela maioria dos autistas (de fato as pesquisas mostravam que apenas 10 a 20% tinham retardo mental). Seu objetivo foi conseguido, pois o autismo se torna rapidamente uma perturbação do desenvolvimento, e toda perspectiva psicodinâmica desaparece sumariamente dos editoriais.

       O livro desses dois editores, Schoppler e Rutter, se tornam exemplares do novo pensamento sobre o autismo. Dois fatores ajudaram nessa virada do poder: a pressão dos familiares e um texto de lei promulgado.

       O autismo precisava de atendimento especializado e a pressão dos pais foi decisiva, acompanhando a mudança do editorial da revista. A opinião das famílias foi se tornando cada vez mais uma opinião científica, chegando a orientar e financiar pesquisas sobre o assunto. A psicanálise que tratou durante trinta anos os autistas era a única via na época que poderia salvar a criança autista de uma internação e ali os pais e crianças tinham uma escuta, porém isso poderia se reverter contra a própria psicanálise, dado que escutar os pais e as crianças faria ela própria parecer perigosa para a paz interior destes, remoendo os fantasmas mais difíceis diante de uma criança autista. Mas de todo modo o que parecia mais complexo era admitir que não era a psicanálise que inventava esses fantasmas, caso eles aparecessem. Para as famílias começa a ficar mais fácil tratar seus filhos como handcaps que precisariam de uma reabilitação, do que passar todos os sortilégios de uma doença, ainda inexplicável, mesmo que tenha um percurso evolutivo.  

      O que precisa ficar claro aqui, que talvez não o seja para essas famílias, é o fundamento que está implícito: o handcap é uma condição imutável podendo apena ser adaptada ao meio. Alguma teoria precisava se adequar a esse novo pensamento. O behaviorismo seria ela: “todo comportamento, aquele do homem e aquele do rato, podem se resumir a uma resposta à um estimulo”, afirmava Skinner, agregando a ideia de que se não temos meios científicos para trabalhar e conhecer a mente humana, é preciso desconsiderá-la, e de fato, acreditava ele, isso não trará nenhum efeito negativo aos estudos científicos. Um aprimoramento nessa ideia foi acrescido: “certas contingências de um ato aumentam a probabilidade de ocorrer novamente e ao mesmo tempo, cria condições que podem ser sentidas, o que achamos digno em um comportamento está ligado a reforços positivos”. Como os estados mentais precisam ter direito a uma teorização, a famosa caixa preta (a MENTE) dos behavioristas, se torna acessível aos cognitivistas. Os behavioristas perderam terreno com isso, lhes restavam se converter em ciências aplicadas a educação, por exemplo, no controle de comportamentos socialmente desviantes: delinquência, alcoolismo, perturbações sexuais e toxicomanias. Eles dão a essa abordagem do behaviorismo aplicado o nome de Applied Behavior Analysis, ABA, e, criam um segundo jornal Journal of Applied Behavior Analysis.

      A criança autista se fechava em comportamentos de automutilação e autoestimulação que paralisavam suas aprendizagens, daí a necessidade de eliminar esses comportamentos inapropriados. Trabalhará com quatro comportamentos indesejáveis: automutilação, ecolalia, estímulos autosensoriais estereotipados e crises auto agressivas. Atualmente seguindo pesquisas que permitem melhor codificar o projeto, fragmentam em pequenas etapas a constituição do comportamento desejável e de eliminação do inadaptado, e os reforços dolorosos parecem ter sido abandonados.

      É notório que o enigma da criança autista provoca dificuldades até mesmo para as ciências ditas mais científicas. A posição da psicanálise é apenas diferente, sem grau de valoração, a diferença mais impactante é que a psicanálise precisa tomar o sujeito no seu aspecto mais singular, não como uma generalização, o que vai acarretar sempre uma busca para escrever sobre o sujeito, mais especificamente, sobre aquele sujeito. E desse modo, longe de generalizar sujeitos ou sintomas, a escrita da psicanálise é uma escrita do analista.

A Formação dos professores

     A formação de educadores mediatizadores é um processo de modificação cognitiva estrutural que precisa ocorrer no interior desse candidato à profissão de educador, através da Experiência de Aprendizagem Mediatizada que deve ser vivenciada e experimentada em sua sala de aula, em meio ao seus estudos como uma filosofia inerente ao curso que está sendo realizado. Desta forma, a qualidade do ensino seria melhorada, pois a modificação seria estrutural e não apenas postural, quando o professor assume seu trabalho dentro de uma proposta pedagógica, por ser este ou aquele, o método enfatizado na época.

       Na Experiência de Aprendizagem Mediatizada, não se concebe a possibilidade de haver indivíduos estáticos ou imutáveis. Portanto, esta intervenção a ser realizada pelo educador se conduzirá de modo intencional nos sistemas disfuncionais de alunos com necessidades específicas, interagindo em sua realidade, em um processo de modificação, para que suas condições de funcionamento cognitivo sejam estruturadas, potencializando-os em suas capacidades adaptativas. A não conformidade proposta por esta teoria desenvolvida por Reuven Feuerstein, dá subsídios para que pessoas com necessidades especiais também sejam trabalhados de forma educativa, estando sujeitos a serem modificados através do mediatizador que procurará transformar sua situação de isolamento e maneirismo em interação e equilíbrio, num processo contínuo de enriquecimento mútuo e fortalecimento do eu, potencializando suas habilidades específicas através da mediatização intencional e recíproca.

     Pensando na pessoa com transtornos invasivos do desenvolvimento e sua complexidade, clarificanos de modo crucial que a aprendizagem por meio de exposições diretas a estímulos diversos, tanto visuais como auditivos ou táteis não contribui para sua formação intersocial e desempenho das estruturas cognitivas. Tal indivíduo exposto a estímulos visuais diversos sem a devida intervenção do educador, tornarse-á estressado por causa da saturação de informações que a ele permanecem infuncionais. Ele registrará os estímulos e até poderá interagir com os mesmos; contudo, mesmo que ocorram modificações em seu processo cognitivo, esta aprendizagem não será suficiente para dar origem a níveis de qualidade e modelos básicos de desenvolvimento cognitivo por apenas exercitar habitualmente as relações sujeito-objeto.

       Entretanto, com a Experiência de Aprendizagem Mediatizada, este aluno poderá alcançar níveis de desenvolvimento, hierarquização e complexidade cognitiva por meio da atuação do educador-mediatizador que intervirá entre os estímulos e o próprio aluno, a partir da intencionalidade da mediatização que e Orrú, Sílvia EsterA formação de professores e a educação… OEI-Revista Iberoamericana de Educación (ISSN: 1681-5653) 5 adequará tais estímulos às suas vicissitudes específicas, sendo esta, a responsável pelas principais transformações nas estruturas cognitivas do ser humano. Para o educador-mediatizador, os estímulos não têm existência vã ou ocasional. Eles existem para serem filtrados, construídos modularmente, mediatizados, intervirem a favor do aluno, fixarem aprendizagens ou mesmo para serem suprimidos conforme as necessidades colocadas e reguladas pelo mediatizador, sofrendo constante relação com o tempo, o espaço e a qualidade dos demais estímulos anteriormente trabalhados ou que virão a seguir, estando impregnados e engastados de toda significação.

Referências

ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM-III-R). São Paulo: Ed. Manole, 1989

CADERNOS CEDES. A nova LDB e as Necessidades Educativas Especiais. Campinas: v. 46, Centro de Estudos Educação e Sociedade, 1998.

CLASSIFICAÇÃO de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10; Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

CLASSIFICAÇÃO Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados com a Saúde da CID-10. São Paulo: Edusp, 1995.

GARCIA, Carlos Marcelo. A formação de professores: centro de atenção e pedra-de-toque. In: NÓVOA, A. (Org.).Os professores e a sua formação. 2ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995.

GASPAR, Maria de Lourdes Ribeiro. Autismo: procurando vencer as barreiras impostas pelo isolamento. Mensagem da APAE. Brasília, ano XXXV, n.º 83, p. 13, outubro, 1998.

Calomberto Rodrigues do Prado

Campo Grande - MS

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