Brincadeiras na Educação infantil.

A introdução de brinquedos e brincadeiras na educação infantil implica definir o que se pensa da criança. Quem é ela? Brinca? O brincar é importante?

A criança, mesmo pequena, sabe muitas coisas: toma decisões, escolhe  o  que  quer fazer,  interage  com  pessoas,  expressa  o  que  sabe  fazer e mostra,  em  seus  gestos,  em  um olhar,  uma  palavra,  como  é  capaz  d e  compreender  o  mundo.  Entre as coisas de que a criança gosta  está  o  brincar,  que  é  um  dos  seus  direitos.  O brincar é uma ação livre, que surge  a qualquer  hora,  iniciada  e  conduzida  pela  criança;    dá  prazer,  não  exige   como  condição  um produto  final;  relaxa,  envolve,  ensina  regras,  linguagens,  desenvolve  habilidades  e  introduz  a criança no mundo imaginário.

Brinquedos e brincadeiras na educação infantil:

Todo o período da educação infantil é importante para a  introdução  das brincadeiras.  Pela diversidade  de  formas  de  conceber  o   brincar,  alguns  tendem  a  focalizá-lo  como  característico dos  processos  imitativos  da  criança,  dando  maior  destaque  apenas  ao  período  posterior  aos dois anos de idade. O período anterior é visto como preparatório para o aparecimento do lúdico. No entanto,  temos  clareza  de  que  a  opção  pelo  brincar  desde  o  início  da   educação  infantil  é  o que garante a cidadania da criança e ações pedagógicas de maior qualidade.

Para  a  criança, o   brincar é  a atividade principal  do  dia-a-dia.  É  importante porque  dá  a  ela o  poder    de  tomar  decisões,    expressar    sentimentos  e  valores,  conhecer  a  si,  aos  outros  e  o mundo,  de  repetir  ações  prazerosas,  de  partilhar,  expressar  sua  individualidade  e   identidade por  meio  de  diferentes  linguagens,  de  usar  o  corpo,  os  sentidos,  os  movimentos,  de  solucionar problemas  e  criar.  Ao  brincar, a   criança experimenta o  poder d e    explorar o  mundo  dos  objetos, das  pessoas,  da  natureza  e  da  cultura,  para  compreendê-lo e  expressá-lo por  meio de  variadas linguagens.  Mas  é  no  plano  da  imaginação  que  o  brincar    se  destaca  pela  mobilização  dos significados.  Enfim,  sua  importância  se  relaciona  com  a  cultura  da infância,  que  coloca  a brincadeira como ferramenta para a  criança se expressar, aprender e se desenvolver. 

A  pouca  qualidade  da  educação  infantil  pode  estar  relacionada  com  a    oposição  que  alguns  estabelecem  entre  o  brincar  livre  e  o  dirigido. É preciso desconstruir  essa  visão equivocada para pensar na criança inteira, que, em sua subjetividade, aproveita a liberdade que tem  para  escolher  um  brinquedo  para  brincar  e  a  mediação  do  adulto ou   de outra  criança,  para aprender  novas  brincadeiras.  A  criança    não  nasce  sabendo  brincar,  ela  precisa  aprender,  por meio  das  interações  com  outras  crianças  e  com  os  adultos.  Ela descobre, em contato  com objetos  e brinquedos,  certas formas  de  uso d esses  materiais.  Observando outras  crianças  e  as intervenções  da  professora, ela  aprende  novas  brincadeiras  e  suas  regras.  Depois  que aprende,  pode  reproduzir  ou  recriar  novas  brincadeiras.  Assim, ela  vai  garantindo  a  circulação e preservação da cultura lúdica. 

Para  educar  a  criança  na  creche,  é  necessário  integrar  não  apenas  a   educação  ao cuidado,  mas  também  a  educação,  o  cuidado  e  a  brincadeira.  Essa  tarefa  depende  do  projeto curricular.

Não se pode  planejar  o  currículo  sem  conhecer  a  criança. É bebê? Criança pequena? Pré-escolar? Como aprende e se desenvolve? Cada uma é diferente da outra, vem de famílias e grupos étnicos diferentes.

Cabe à creche e à pré-escola, espaços institucionais diferentes  do  lar,    educar  a  criança de  0  a  5  a nos  e  11  meses  c om  brinquedos  d e  qualidade,    substituindo-os,  quando  quebram  ou já  não  despertam  mais  interesse.  Para adquirir  brinquedos,  é  fundamental  selecionar  aqueles com  o selo  do  INMETRO  (Instituto  Nacional  de  Metrologia),  que  já  foram  testados  em  sua qualidade com critérios apropriados às crianças. 

A seleção de brinquedos envolve  diversos  aspectos:  ser  durável,  atraente,  adequado  e apropriado  a  diversos  usos;  garantir  a  segurança  e  ampliar  oportunidades  para  o  brincar; atender  à  diversidade  racial,  não  induzir  a  preconceitos  de  gênero,  classe  social  e  etnia;  não estimular  a   violência;  incluir  diversidade  de  materiais  e  tipos  ?  brinquedos  tecnológicos, industrializados, artesanais e produzidos pelas crianças, professoras e pais.  Assim, é preciso considerar:

•TAMANHO: o  brinquedo,  em  suas  partes  e  no  todo,  precisa  ser   duas  vezes  maior  e mais largo do que a mão  fechada da criança (punho); 

•DURABILIDADE: o brinquedo não pode se quebrar com facilidade ? vidros e  garrafas plásticas são os mais perigosos;

•CORDAS E CORDÕES: esses dispositivos podem enroscar-se no pescoço da criança;

•BORDAS CORTANTES OU PONTAS: brinquedos c om essas características devem ser eliminados;

•NÃO TÓXICOS: brinquedos com tintas ou materiais tóxicos devem ser eliminados, pois o bebê os coloca na boca.

•NÃO INFLAMÁVEL: é preciso assegurar-se de que o brinquedo não pega fogo;

•LAVÁVEL, FEITO COM MATERIAIS QUE PODEM SER LIMPOS: essa recomendação se aplica especialmente às bonecas e brinquedos estofados;

•DIVERTIDO: é importante assegurar que o brinquedo seja atraente e interessante. 

A análise do brincar na educação infantil será efetuada à luz dos artigos 9º a 12º das Diretrizes Curriculares de Educação Infantil.  Segundo o artigo 9º, os eixos norteadores das práticas pedagógicas devem ser as interações e a brincadeira, indicando que não se pode pensar no brincar sem as interações:

  • Interação com a professora ? O brincar interativo com a professora é essencial para o conhecimento do mundo social e para dar maior riqueza, complexidade e qualidade às brincadeiras.  Especialmente para bebês, são essenciais ações  lúdicas  que envolvam turnos de falar ou gesticular,  esconder e achar objetos. 
  • Interação com as crianças  ? O brincar com  outras  crianças  garante    a  produção, conservação  e  recriação  do  repertório  lúdico  infantil.  Essa  modalidade  de  cultura  é conhecida como cultura infantil ou cultura lúdica.
  • Interação com os brinquedos  e  materiais  ?  É essencial  para  o    conhecimento  do mundo  dos  objetos.  A diversidade de formas, texturas, cores,  tamanhos,  espessuras, cheiros  e  outras  especificidades  do  objeto  são  importantes  para  a  criança compreender esse mundo.
  • Interação entre criança e ambiente  ? A organização do ambiente pode  facilitar  ou dificultar  a  realização  das  brincadeiras  e  d as  interações  entre  as  crianças  e  adultos. O ambiente físico reflete as concepções que a instituição assume para educar a criança. 
  • Interações (relações) entre a Instituição, a família e a criança  ? A  relação  entre  a instituição  e  a  família  possibilita  o   conhecimento  e  a  inclusão,  no  projeto  pedagógico, da cultura popular e dos brinquedos e brincadeiras que a criança conhece.  

Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil, as práticas pedagógicas devem garantir experiências diversas.

Conhecimento de si e do mundo por meio das experiências sensoriais, expressivas e corporais para movimentação ampla, expressão da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos da criança:

A construção de  uma  imagem  positiva de  si e do mundo  inicia-se  desde  o  ingresso  do bebê  na  creche,  com   a  atenção  e  o  carinho  da  professora  e  os  vínculos  construídos  entre  os dois.  A percepção pelo bebê de sua própria  imagem  no  espelho favorece  o  conhecimento de  si e do mundo,  porque  a  criança,  ao  ver  sua  imagem  refletida  no  espelho,  identifica  a  si  mesma como  distinta  de  outras  crianças  e  dos  objetos. As brincadeiras, como formas de  expressão, são  também  oportunidades  para  a  manifestação  da  individualidade  de  cada  criança,  de  sua identidade, porque cada uma tem uma singularidade que deve ser respeitada.

A  criança  utiliza  os  órgãos  sensoriais  para  explorar  e  conhecer  o  mundo  dos  objetos. Quando coloca o brinquedo na boca, experimenta a sensação de duro, mole, o que amplia suas experiências sensoriais e a encaminha para a compreensão de  conceitos.  Texturas, cores, odores, sabores, sons são experiências que a criança  adquire  no  contato  com  móbiles coloridos,  sonoros, saquinhos  de  ervas  aromáticas  e  brinquedos  de  diferentes  densidades  e formas. Objetos domésticos de uso cotidiano  são  importantes  itens  para  ampliar  as experiências  sensoriais. Objetos feitos com  materiais  naturais  ou  de  metal, como  bucha, escova de  dente  nova,  pente  de madeira  ou  de  osso,   argola  de madeira ou  de  metal,  chaveiro com  chaves,  bolas  de  tecido,  madeira  ou  borracha,  sino e outros, dentro  de  um  grande  cesto de  vime  com  base plana  e  sem alças,  s ervem para  a exploração  livre  do  bebê.  As experiências expressivas só são possíveis quando ele tem a  oportunidade  de  escolher  o  que  fazer,  como fazer,  com que  brinquedo,  com quem  brincar,  para  mostrar    seus  saberes,  utilizando  as  formas de expressão que conhece.

O primeiro  brinquedo  do  bebê  é  o  adulto,  que  conversa  e  interage  com  ele  e  o  f az  ver    e descobrir  o  mundo.  Entre as brincadeiras  interativas  que  levam  o  bebê  a  se  expressar  é  muito conhecida  a  de  esconder  e  descobrir  o  rosto  usando  uma  fralda  e  dizendo  “cucu”,  “escondeu”, “achou”. Quando  toma  iniciativa  e  esconde  um  brinquedo,  o  bebê  já  domina  a  brincadeira  e expressa  seu  domínio  de  forma  prazerosa,  repetindo  sua  nova  experiência,  variando  as situações.  Aqui se encontra  um  exemplo  de  como  se  aprende  a  dar  significados  aos movimentos, a compreender e usar  regras e a linguagem.   

Bebês em torno de seis  meses  utilizam  as  mãos  para  manipular  objetos,  ver  o  que  se pode  fazer  com  eles  e  encaixá-los. A criança, nessa fase, “pensa com as  mãos”. Pinos de encaixe coloridos, no  formato  de  carrinho  ou  trem,  chamam  sua  atenção,  e  os  bebês    querem saber o que se pode fazer com tais objetos. Usar o corpo como instrumento de conhecimento é característico de bebês e crianças pequenas.  Eles gostam de  entrar  dentro  de  caixas,  em buracos,  túneis,  passagens  estreitas;  apreciam  empurrar,  puxar,  subir,  encaixar,  empilhar.  Há brinquedos e materiais  que  auxiliam  o  conhecimento  do  mundo  físico,  entre  os  quais, as bolas, que são ótimas  para apertar, conhecer a  textura, cor,  deixar cair p ara ver  como  rolam. Há  bolas com  diferentes  funções:  há  as  que  produzem  som  ao  toque,  as  que  têm  uma  f ace  espelhada, permitindo  à  criança  conhecer  a  si  mesma,  ou  buracos,  que  o  bebê  pode  explorar  enfiando  o braço e a mão. O mundo social aparece  nas  brincadeiras,  que  mostram  não  apenas  como brincar de forma diferente, mas também como conhecer o outro. A expressão dos  movimentos  pode  ser  feita  por  meio  de  brinquedos  versáteis,  como  o carrinho  grande,  com    corda  para    puxar,    que  serve    p ara  a  professora  passear  com  o  bebê  que  não  anda,  dar  prazer  a o  que  fica  sentado  tirando  e  colocando  as  peças  que  ficam  em  seu interior  e  para  exercitar  os  movimentos  da  criança  que  começa  a  andar  e  gosta  de  puxar carrinho. Outros brinquedos, usados à maneira de blocos de construção, podem ser empilhados por  crianças  menores  e  servir  para  os  maiores  construírem  novos  es paços  para  brincadeiras imaginárias.  Módulos  de  espuma  resistente,  revestidos  de  tecidos  emborrachados,  de  fácil  limpeza,  servem para a  criação de estruturas para  exploração motora, com rampas para subir e descer e pontes  para  passar  por  baixo.  Acopladas  a  outros  módulos  com  buracos  e  túneis,  essas estruturas  constituem  experiências  desafiadoras  em   que  o  movimento  é  a  linguagem privilegiada. A criança  que  engatinha  usa  o  movimento  para  deslocar-se  em  direção  aos  objetos  de seu  interesse. É o movimento  de  seu  corpo  em  ação  que  mostra  o  que  ela  já  sabe  fazer. Desafios, como subir em almofadas, pegar um brinquedo  colocado  a  certa  distância    ou  vários materiais  com  as  mãos,  tocar  as  partes  do  corpo,  brincar  com  as  mãos,  os  pés,  os  dedos,  são experiências interativas e motoras em que se aprende e se brinca pela repetição das ações.  Triciclos sem pedal ou carrinhos/caixas de empurrar e puxar fazem  a criança que começa a  andar  usar  amplos  movimentos.  Cavalinhos e balanços possibilitam balançar e cavalgar; cubos servem  para  empilhar. Bancadas de brinquedos para martelar possibilitam a compreensão de que o pino penetra na bancada: é a descoberta da relação entre o martelar e o deslocar.  

A criança pequena brinca no colchão, rola, dá cambalhotas, engatinha para percorrer um túnel,  sobe  no  trepa-trepa. O lençol e a colcha, quando puxados por um adulto,  servem  para balançar  a  criança  ao  ritmo  de  sons  de  transporte  ou,  quando  cobrem  uma  mesa,  servem  de cabana para ela se esconder.  Crianças pequenas brincam  com  água,  terra,  areia; fazem  experiências  com  tintas, alimentos,  plantas  e  outros  materiais,  para  explorar  e  ver  o  que  acontece,    movidas  pela curiosidade.  São numerosas e variadas as experiências expressivas, corporais e  sensoriais proporcionadas  à s  crianças  pelo  brincar.  Não se podem planejar práticas pedagógicas sem conhecer a criança.  Cada uma é diferente, tem preferências conforme sua singularidade.  Em qualquer agrupamento infantil, as crianças avançam em ritmos diferentes. Dispor de um tempo mais longo, e ambientes com variedade de brinquedos,  atende  aos  diferentes  ritmos  das crianças e respeita a diversidade de seus interesses.

Referências

MELLO, Anna; MANTOVANI,  Susanna.  Manual de  Educação  Infantil. Tradução:  Rosana Severio DiLeone e Alba Olmi. 9ª. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

BRASIL. Ministério  da  Educação/Conselho  Nacional  de  Educação/Câmara  de  Educação Básica.  RESOLUÇÃO  N.  5,  de  17  de  DEZEMBRO  DE  2009. Fixa  as  Diretrizes  Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: 2009. 

BRASIL. Ministério da Educação/Secretaria de Educação Básica. Indicadores da qualidade na educação infantil. Brasília: MEC/SEB, 2009. 

BRASIL.  Ministério  da  Educação/Secretaria  da  Educação  Continuada.  Alfabetização  e  Diversidade.  Orientações  e  Ações  para  a  Educação  das  Relações  Étnico-Raciais.  Brasília: SECAD, 2006.