Internet – A fórmula que revolucionou a comunicação mundial

DESENVOLVIMENTO

Nenhum meio de comunicação foi, como já explicamos, tão poderoso e causou tantas e tão profundas modificações na sociedade quanto a escrita. Todos proporcionaram, de modo mais ou menos contundente modificações na sociedade e na visão de mundo das pessoas. Fundamentalmente, todos contribuíram para a redução do espaço, ou seja, para a rapidez e eficiência da comunicação entre as pessoas em localidades diferentes. Segundo McLuhan, os meios de comunicação atuam como extensões das capacidades naturais dos seres humanos. A televisão mostra aquilo que não podemos ver fisicamente, mas através dela, como uma extensão de nossos olhos. O rádio trouxe as notícias das quais não tínhamos conhecimento, como uma extensão dos nossos ouvidos. O telefone nos permitiu levar a voz a uma distância infinitamente maior do que jamais se havia pensado. E assim sucessivamente, cada meio representou uma extensão de uma capacidade natural dos seres humanos. A Internet, no entanto, através da Comunicação Mediada por Computador, proporcionou a extensão de várias capacidades naturais. Não apenas podemos ver as coisas que nossos olhos naturalmente não vêem. Podemos interagir com elas, tocá-las em sua realidade virtual, construir nossos próprio raciocínio não linear em cima da informação, ouvir aquilo que desejamos, conversar com quem não conhecemos. Fundamentalmente, podemos interagir com o que quisermos.

Autores como LOGAN (1999) definiram a Comunicação Mediada por Computador como uma nova e importantíssima linguagem. Para LOGAN, todo o desenvolvimento da humanidade deu-se sobre as tentativas de organização da complexidade e do caos da realidade que circundava os primeiros seres humanos. Assim, como tentativas de organizar todo o seu raciocínio e a sua compreensão do mundo, surgiram a fala, a escrita, a matemática, a ciência, a informática e por fim, a sexta linguagem, a Internet. Cada linguagem surgia quando a anterior não era mais suficiente para explicar os fenômenos. LOGAN utiliza-se de uma perspectiva física e matemática (da teoria do caos) e humana (teoria da linguagem e as idéias de MCLUHAN) para definir a evolução da linguagem.

Além disso, a Internet apresenta uma convergência de mídias. No computador já é possível assistir televisão, ouvir rádio ou ler jornal… Enfim, todas as mídias tradicionais com o plus da interatividade. Logo, enquanto usuários da Rede, cada indivíduo é um emissor massivo em potencial. Pode difundir mensagens e idéias através de e-mail, chats ou mesmo em listas de discussão e websites. Pode difundir sua música através da gravação da mesma em um formato que seja manipulável através da Internet. Pode gravar um vídeo em uma câmera digital e divulgá-lo. Enfim, as possibilidades são inúmeras. Cada indivíduo é um emissor e um receptor simultaneamente na Rede.

Uma das características mais profundas da influência de um meio de comunicação nas sociedades é a reconfiguração dos espaços percebidos por esta sociedade. Isso porque a comunicação reduz as distâncias e permite que as pessoas aproximem-se. Não em uma perspectiva concreta, obviamente, mas em uma perspectiva de percepção. Com a Internet essas distâncias tornam-se ínfimas. Isso porque agora não é mais possível apenas ter “acesso” a informações de lugares distantes. É possível também alterá-las. No ciberespaço, não existem distâncias físicas. Essa característica da não-geograficabilidade do espaço em que se age e interage é inovadora e diferencial na CMC. É possível conversar com alguém que esteja há milhares de quilômetros, receber arquivos, trocar fotos, tudo em questão de segundos. A distância geográfica é pulverizada pela comunicação. No mundo virtual, é possível tocar, sentir, ver, ouvir e interagir com elementos que estão localizados há milhares de quilômetros. No ciberespaço, não há distância. A geografia fica em segundo plano. Com isso, muitos pesquisadores têm observado que nossa noção de espaço vai sendo drasticamente modificada. Não se trata mais de uma aldeia global, mas sim de uma comunidade global.

Além disso, a organização da própria informação no ciberespaço faz com que a noção de território que permeou nossas idéias por séculos seja superada. Hoje em dia, profissionais do Direito em todo o mundo encontram dificuldades ao lidar com as questões territoriais globais. Como equacionar um problema de direito autoral, onde o elemento pirata é francês, mas encontra-se hospedado em um país onde a pirataria não é crime e realiza ações criminosas no Brasil? Além de diminuir as distâncias e permitir o transporte de informações de uma maneira quase instantânea, o ciberespaço proporciona uma reconfiguração da noção de espaço geográfico, em cima de um novo espaço, não geográfico, que supera as fronteiras do mundo físico.

Talvez um dos pontos mais importantes seja a reorganização dos hábitos de socialização que a Internet proporciona. A análise da Internet como fator modificador das relações sociais é principalmente enquadrada, em nosso ponto de vista, pelo estudo das comunidades virtuais, como forma mais pura de conseqüência da interação entre o humano e o ciberespaço. A mudança de paradigmas que o surgimento da Rede trouxe para o mundo acabou por trair os conceitos de comunidades tradicionais. Não há interação física. Não há proximidade geográfica: Estas comunidades estruturam-se fundamentalmente sobre um único aspecto: o interesse em comum de seus membros. A partir deste interesse, as pessoas conseguiriam criar entre si relações sociais independentes do fator físico, e com o tempo essas relações tornar-se-iam de tal forma poderosas que poderiam ser classificadas como laços comunitários. Estruturadas sobre um locus virtual, não físico e nem real, essas comunidades surgiriam através da interação puramente comunicativa entre seus membros. REINGHOLD (1997), um dos pioneiros na identificação deste fenômeno, descreveu sua experiência na rede “The Well“, contanto como o sentimento comunitário permeava todos os participantes dos fóruns e de como estas relações a princípio virtuais foram estendidas para o mundo real. Ou seja, através das comunidades virtuais, a Internet estaria atuando como meio de encontro e formação de grupos sociais. O que é evidente, se verificarmos a existência de grandes redes articuladas internamente à grande rede, no limbo de uma existência, que divulgam informações e atuam como ponto de encontro para pedófilos, hackers ou mesmo, crackers. A este respeito, fazemos menção a uma teoria um pouco antiga, de RAY OLDENBURG, sobre o desaparecimento dos terceiros lugares na América. Segundo ele, em sua análise da sociedade norte-americana, a vida cada vez mais atribulada das pessoas, o surgimento das metrópoles e o crescimento da violência estariam contribuindo para o desaparecimento dos lugares mais fundamentais para as sociedades humanas: os terceiros lugares, lugares lúdicos, de prazer e lazer. OLDENBURG diz que existem basicamente três categorias de lugares essenciais para o indivíduo: os primeiros que compreenderiam seus lares, onde criam relações entre os membros de sua família; os segundos, os do trabalho, onde nascem relações profissionais; e os terceiros, aqueles que estimulariam o lazer, sendo os mais propícios para o surgimento de relações sociais. Com o desaparecimento destes lugares, estaria havendo uma queda no sentimento de comunidade, levando a uma exacerbação do individualismo e ao fim do social. Entendendo por este lado, a Rede teria propiciado o renascimento dos terceiros lugares, num momento onde o medo da violência e o desaparecimento desses lugares seria um fenômeno mundial, desta vez como lugares virtuais, que revelaram-se propícios para a retomada de laços sociais que levam ao surgimento das comunidades. Ou seja, seria uma reação ao individualismo pregado pelo capitalismo, um retorno ao sentimento comunitário que auxiliou as comunidades humanas na sobrevivência e perpetuação da espécie por muitos séculos. O que observamos aqui é, portanto, uma nova forma de estabelecer laços sociais, de reunir pessoas sob a forma de uma comunidade. Essa modificação é muito importante pois derruba o paradigma geográfico das comunidades, graças à reconfiguração do espaço proporcionada pelo ciberespaço.

A Internet propicia uma comunicação entre muitos e para muitos. Talvez porque muitas pessoas podem interagir com muitas pessoas, neste meio é que teóricos como PIERRE LÈVY consigam ver na Internet um futuro democrático para a humanidade. Oras, a ideia da “democracia eletrônica” não é de todo impossível e utópica. Se de um lado a Rede oferece efetivamente a chance, ao cidadão comum, de articular-se com outras pessoas através de seus campos de interesse, de outro, este acesso ainda é um tanto o quanto restrito. E a ideia tem recebido críticas ferrenhas, estruturadas sobre dois aspectos fundamentais: a Internet como fruto do capitalismo não poderia opor-se a ele; e o acesso a Internet não é democrático, especialmente para os países do chamado Terceiro Mundo.

Outros teóricos, no entanto, vêem na Internet o surgimento de uma grande transformação política, através do surgimento, não de uma democracia, mas de uma tecnocracia, onde a técnica comanda tudo e todos. Este novo sistema seria a superação do capitalismo, criado a partir do surgimento de uma nova aristocracia: a dos digerati Estas pessoas seriam aqueles que dominariam a técnica, pioneiros no desenvolvimento das máquinas, das tecnologias e em sua aplicação para o bem da humanidade, rumo à “Sociedade da Informação’”. Esta ideologia não pregaria a dominação de uns por outros. Ao contrário, a era dos digerati beneficiaria a todos. Eles “transformariam as restrições do fordismo em liberdades da sociedade da informação”. (BARBROOK, 1999) A participação democrática dar-se-ia de forma pessoal e não mais representativa, através de ágoras virtuais, onde a cidadania poderia ser exercida livremente e destituída de intermediários. BARBROOK (1999) observou ainda que toda esta afluência do digital sobre o sistema nada mais seria do que uma reinvenção do capitalismo, desta vez não um capitalismo marxista ou stalinista, mas uma outra forma de comunismo. O autor faz um paralelo entre os discursos do comunismo da Revolução Russa e a tecnocracia pregada pelos adeptos do Vale do Silício.

CONCLUSÃO

Vivemos no  século das revoluções. Por isso, neste artigo, procuramos reunir teóricos que coloca a Internet como centro de uma nova revolução na comunicação mundial. O objetivo foi mostrar que os antigos paradigmas que utilizávamos para ver e avaliar os fenômenos que nos rodeiam talvez estejam sendo modificados mais rápido do que sequer imaginamos. Discutimos e selecionamos algumas das principais revoluções apontadas pelos teóricos que escrevem sobre a Internet nos últimos tempos. Pretendemos sim, suscitar a discussão e a formulação de novos hipertextos sobre a realidade e as transformações que estamos vivendo. A Internet é o meio mais revolucionário de que já tivemos notícia sim. Primeiro por causa de suas características peculiares, que explicamos no decorrer do artigo. Segundo porque permitiu uma reconfiguração do nosso sistema de pensamento e mais ainda, da nossa ideia de comunicação, base de nossa sociedade. Resta saber ainda o quanto essa revolução poderá atingir o nosso futuro.

REFERÊNCIAS

BARBROOK, Richard. Cybercommunism. How the Americans are Superseding the Capitalism in Cyberspace.

LÉVY, Pierre. O que é o virtual? Coleção Trans. Editora 34. São Paulo, 1997.

  A Inteligência Coletiva. Edições Loyola. São Paulo, 1998.

LOGAN, Robert K. “The Extended Mind: Understanding Languages and Thought in Terms of Complexity and Chaos Teory”.

PRIMO, Alex Fernando Teixeira. A Emergência das Comunidades Virtuais.

REID, Elisabeth M. Electropolis: Communication and community on Internet Realy Chat. Honoris Thesis. Universidade de Melbourne – Austrália. 1991.

RHEINGOLD, Howard. La Comunidad Virtual. Una sociedad sin fronteras. Colección Limites de La Ciencia. Gedisa Editorial. Espanha. 1996.

 

Felipe

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