O fenômeno da automutilação: a nova “onda” nas redes sociais

Atualmente vivenciamos a “era das redes sociais”, as quais são multiplicadoras de comportamento e podem ser utilizadas para o bem e para o mal. Nesse sentido, cresce o número de crianças e adolescentes que participam ativamente e páginas criadas nas redes sociais que incentivam diversos hábitos de conduta.

Dentre esses hábitos, um chama a atenção de especialistas da área de saúde e educadores brasileiros: que é a prática da automutilação. Fato que está virando uma “epidemia” que atinge as famílias e causa preocupação na comunidade escolar.

A automutilação é definida como qualquer comportamento intencional que envolve agressão direta ao próprio corpo, sem a intenção consciente de suicídio. De acordo com os especialistas, os pacientes afirmam ter a sensação de irrealidade, vazio, inutilidade antes da prática e depois do ato praticado, sentem-se satisfeitos, aliviados e até mesmo felizes e fascinados com os sinais e a sensação do calor do sangue que escorre dos ferimentos (Giusti, 2013).

Muitos pais e familiares não percebem e tampouco imaginam que seus filhos fazem cortes nos braços, pernas e em outras partes do próprio corpo, muitas vezes apenas para serem aceitos nos grupos ou mesmo porque estão diante de um sofrimento psíquico que ainda não foi percebido pelos seus familiares, e encontram na automutilação a saída para o sofrimento vivenciado.

Entre os adeptos, encontram-se principalmente os adolescentes na faixa etária dos 13 aos 17 anos (idade em que não possuem uma personalidade formada), que se automutilam com canivetes, lâminas de barbear e de apontadores de lápis para diminuir sofrimentos emocionais ou psicológicos. Isso porque em estágios de frustração, os cortes aliviam a dor psíquica, trazendo um alívio imediato e, depois, a sensação de vergonha e arrependimento como todo vício acarreta.

O início de uma automutilação pode ser por meio da ponta da própria caneta ou lápis, iniciando com pequenos pontinhos de cortes na pele e aumentando gradativamente para outros tipos de objetos perfuro cortantes, os quais são indicados nas páginas das redes sociais como os melhores objetos para realizar o ato com êxito.

De acordo com especialistas, para se cortar, as pessoas utilizam vários instrumentos. Patricia Adler salienta que “começam ainda crianças com clipes de papel, pregos e tesouras. Mudam para facas de cozinha, pedaços de vidro, ou abrem cartuchos de barbeadores e utilizam as lâminas”. As meninas fazem cortes menores em locais escondidos, enquanto os meninos fazem cortes mais profundos e aparentes no peito e nos braços.

Os adeptos frequentam as páginas das redes sociais e postam fotos da pele ferida, como forma de autoajuda, e ainda trocam informações por meio do aplicativo WhatsApp. Nessas páginas, podemos encontrar incentivos como “dê o primeiro corte” e, depois, o vício toma conta daqueles que entram na brincadeira para fazer parte da turma, assim cada corte libera endorfina, o hormônio do prazer, tornando a brincadeira em um vício sem volta.

De acordo com Gonzales (2015), “quando postam as imagens nas redes sociais, essas jovens recebem comentários carinhosos: conhecidos e desconhecidos escrevem mensagens de apoio para que encerrem a prática. Em geral, são escritas por meninas com as mesmas angústias. Assim, um ciclo vicioso de dor e consolo se mantém”.

Para a psiquiatra Jackeline Giusti, especializada em automutilação e membro do grupo dedicado ao hábito do Instituto de Psiquiatria da USP, em São Paulo, a prática está longe de ser uma modinha adolescente. “Os cortes são sempre a expressão de um outro problema”, afirma. “Normalmente estão associados a depressão, compulsão alimentar ou TOC [transtorno obsessivo compulsivo].”

Rulianne Roberta Contarelli Marins

Aimores - MG

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